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Silêncio na Esplanada com a Reforma da Previdência

(Artigo escrito como reação à Reforma da Previdência do governo Lula, logo após sua posse no primeiro mandato. Publicado em 2002 no site do CORECON-DF).

Um amigo meu, velho funcionário público, pôs-se a ensaiar o hino nacional em seu saxofone dourado para uma apresentação popular no dia da posse de Lula. Desistiu à última hora, devido à chuva na Esplanada dos Ministérios e ao peso do instrumento. Hoje, dá graças a Deus de não ter exposto sua alegria de maneira tão efusiva, pois, avizinha-se, partindo de quem menos se espera, novo "pogrom" contra os funcionários públicos.

A última década foi das mais vergonhosas para a nacionalidade, pela maneira como foi tratado o Estado e os que nele trabalham, servidores e funcionários públicos. De fato, o ataque ao Estado passa pela desmoralização do Serviço Público, pois as instituições estatais, como todas as outras, existem com pessoas e por pessoas.

A situação das contas públicas começou a se deteriorar no Brasil a partir o do governo Figueiredo e atingiu seu clímax na década da globalização, os anos 90. Desenvolveu-se um movimento imposto pelo FMI e pelo capital financeiro internacional que levou a situações absurdas, como a classificação do investimento das estatais e do prejuízo do Banco Central como déficit público.

Daí a sempre presente e impossível necessidade de se equilibrar as contas públicas pela geração de um superávit primário sempre maior do que o anterior e sempre impossível de ser alcançado. Algo como a corrida de Aquiles contra a Tartaruga. As primeiras vítimas foram os que trabalham no Estado que viram seus salários achatados, virando alvo da mais indigna das retóricas, ampliada por uma verdadeira máquina de lavagem cerebral coletiva por meio da imprensa.

O governo Collor representou um momento lamentável para os brasileiros e especialmente para os servidores públicos. A questão do déficit público ainda não tinha atingido a intensidade que tem hoje, mas conjugou-se com a corrupção direta em larga escala. Destruir o Estado era importante para afastar fiscais e funcionários honestos, para não se cobrar imposto, ou para se evitar qualquer controle ou exigência, que se impunha para a proteção da saúde ou o do bem estar da população contra empresários ávidos pelo lucro. Para vender isenção tributária, caso a caso, ou consultorias para centros de pesquisa de amigos era essencial o afastamento de gente competente e orientada pela marca ética, que Weber identificava nas burocracias estatais.

Assim, exigiu-se que um em cada quatro funcionários fosse demitido. Deu-se prioridade à expulsão dos mais antigos, "os velhos", como se dizia na época, não por coincidência os que tinham maior compromisso com a coisa pública. Às chefias cabia a escolha da vítima, e se o chefe não cumprisse este papel indigno, era ele próprio demitido.

Como as pessoas se tinham profissionalizado no serviço ao Estado, em décadas de trabalho, o quadro de recessão econômica agravado pela proibição de concursos públicos tornava virtualmente impossível um novo emprego. Argumentava-se, porém, que quem não encontrava um novo emprego era "incompetente". Houve a reação nos tribunais e, em muitos casos, valeu a garantia constitucional da estabilidade conferida pela Constituição de 1988. Foi criada a humilhante figura do banco dos "disponíveis", funcionários desnecessários, mas que não podiam ser demitidos, uma espécie de "peso morto" da nação.

O discurso contra os funcionários públicos veiculado pelo Presidente da República e seus asseclas, apoiado pela imprensa, centrava-se no conceito de "marajás", sinistros exploradores do povo, que ganhariam rios de dinheiro sem esforço, e aos quais eram atribuídos todos os problemas do País. Assim, o nível salarial excessivo de algumas poucas dezenas de funcionários foi generalizado para toda uma classe profissional. Disseminou-se o ódio aos servidores públicos que passaram a ser responsabilizados por todos os problemas do País. Concretizou-se a síndrome do "bode expiatório". Houve a estigmatização de uma classe, da mesma forma como aconteceu com minorias étnicas em diferentes países.

Foi esquecido que profissões amadas e indispensáveis como as de professor, médico e cientista são compostas, em sua maioria, de funcionários públicos, que passaram a ser visualizados como milionários ladrões do povo Tornou-se perigoso viajar pelo País com carro emplacado em Brasília, mesmo um humilde chevette. Chegou a haver um episódio de insultos e agressão física a datilógrafas e outros barnabés por alguns "descamisados", em plena Esplanada dos Ministérios, pelo fato de contarem com o grande privilégio de transporte em ônibus dos órgãos públicos em que trabalhavam.

Enquanto isto, desenrolava-se em cada órgão público um drama de extrema crueldade. Os que não eram demitidos viam seus salários reduzidos de maneira que não podiam manter, com um mínimo de dignidade, não o padrão de vida anterior, mas a própria existência de suas famílias. Multiplicaram-se as funções gratificadas, que, ao mesmo tempo em que garantiam a sobrevivência do servidor, implicavam obediência cega e a capacidade de perseguir os demais. O nível de stress funcional foi às alturas, levando, mesmo, à morte, por enfarte e outras doenças decorrentes das condições de trabalho. Há documentados dezenas de casos deste tipo. Meu amigo servidor público sofreu a perda do colega que trabalhava na sala ao lado.

O órgão em que este meu amigo trabalhava desempenhava uma função essencial para o futuro e para a própria sobrevivência do País. Viu a unidade funcional em que trabalhava ser fechada, para que os serviços que produzia fossem contratados por um custo muito superior a uma consultoria privada. Seu salário, o de último grau da respeitada carreira técnica e de pesquisa em que estava classificado, após mais de 25 anos de serviço, caiu de U$ 2000,00 para qualquer coisa como U$ 400,00 por mês, em menos de dois anos, tornando-se insuficiente, sequer, para o sustento da família. O próprio órgão não foi fechado e suas funções privatizadas devido ao fim prematuro do governo Collor. Foi "salvo pelo gongo".

Este meu amigo teve a sorte de conseguir sair do Brasil para trabalhar em uma universidade estrangeira e voltar ao País durante o governo Itamar, quando se resgatava a dignidade do Estado. A paz não durou muito. Fernando Henrique Cardoso associou-se ao discurso de Collor, diversas vezes contra o Estado e os funcionários públicos, em sua coluna da Folha de São Paulo. Quando assumiu, dois pontos tornaram-se nevrálgicos em sua agenda: as privatizações e a reforma da previdência, diminuindo o tamanho do estado e transferindo suas funções para o mercado.

Depois de algum tempo, o FMI e a banca internacional e nacional perceberam que havia necessidade de um mínimo de Estado no Brasil. Havia que se garantir o superávit para o pagamento de juros e enriquecimento dos bancos, fazendo-se necessário uma Secretaria da Receita Federal "eficiente". O Banco Central não podia deixar de existir, para garantir uma taxa de juros na estratosfera. A polícia tinha que ser reforçada para reprimir os trabalhadores e a Justiça tinha que ser bem paga para que os juízes não se identificassem com os oprimidos.

Durante o primeiro mandato de FHC, de um lado, as máquinas estatais de arrecadação e repressão foram prestigiadas, e do outro, os centros de pesquisa científica e tecnológica, a extensão tecnológica, os hospitais públicos, as universidades, a proteção e preservação de bens culturais e as próprias Forças Armadas tiveram seus salários achatados e suas carreiras eliminadas ou desprestigiadas. Funções como as de engenheiro ou médico deixaram de ser importantes para o serviço público e para a economia que, como um todo, se desindustrializava: o número de engenheiros em atividade no Brasil caiu cerca de 20%, na última década.

Outro ataque recente ao Estado e aos servidores públicos veio das reformas administrativa e da previdência durante o governo FHC. Acabou-se com a estabilidade para muitas carreiras em que tal requisito era indispensável. Contou-me o meu amigo, o velho servidor, que muitas vezes foi pressionado ou ameaçado, para emitir pareceres dirigidos ou opiniões tendenciosas, ou passar informações que não poderiam ser disseminadas, para evitar o favorecimento de determinado grupo ou setor. A estabilidade funcional sempre foi uma defesa eficaz contra essas ameaças.

No caso da reforma da previdência, os servidores públicos conseguiram resistir em aspectos essenciais, principalmente no Congresso Nacional. Eram representados, basicamente, pelo Partido dos Trabalhadores, o que fazia sentido, pois um partido de esquerda seria vocacionado, por definição, para a defesa do Estado e dos seus servidores. Por isto é espantoso que, poucos meses, após resistir à reforma da previdência no Congresso Nacional, este Partido dos Trabalhadores, instalado na Presidência da República, se volte contra os trabalhadores do setor público e proponha uma reforma da previdência idêntica à do governo Fernando Henrique. Espantoso, também, porque sempre se supôs que o PT teria "caráter" , isto é, seria o "único verdadeiro partido no Brasil", com um programa coerente e uma ação consistente.

A reforma da previdência do governo FHC, agora assumida pelo PT, partia de um diagnóstico tendencioso, dos interesses do setor financeiro e de uma ação política destinada a proteger estes interesses.

O diagnóstico é o de que a previdência, no Brasil, principalmente a pública, estaria "quebrada". Para tanto, inventou-se que o sistema brasileiro seria de "repartição simples", ou seja, que a previdência seria um sistema fechado, no qual aos servidores ativos caberia, a cada ano, a responsabilidade de manter os servidores inativos. No ano em que a contribuição dos ativos não cobrisse as aposentadorias e pensões, haveria déficit.

É desconhecida, no mundo inteiro, tal conceituação logicamente absurda, e é estranho que pessoas inteligentes a repitam. Se um trabalhador, durante toda a sua vida, contribuiu para receber um tanto do Estado, a conceituação da previdência deve ser a de um fundo flexível. O superávit deste fundo foi apossado pelo Estado brasileiro para a construção de grandes obras públicas do século XX, casos de Brasília, Itaipu ou da Ponte Rio Niterói. Se o Estado tem o direito de assumir o superávit, é de se supor que tenha, também, a obrigação de assumir o déficit deste fundo. Assim, o chamado "déficit da previdência" não pode ser calculado ano a ano, mas a partir do que entrou e saiu durante décadas para o governo, devidamente capitalizado.

O diagnóstico de que previdência social pública estaria "quebrada" no Brasil parte da idéia de que esta seria um sistema fechado, independente do Tesouro Nacional, o que não ocorreu quando do superávit. O mesmo governo que se sentiu inteiramente à vontade para usar o superávit, defende, agora, que a previdência deva sustentar-se.

Aliás, consideradas determinadas variáveis não existe qualquer déficit. É esta a posição do Presidente do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal, Paulo Gil (Folha de São Paulo, 19/01/2003). Seu ponto de vista é de que não existe déficit, pois não são computadas no cálculo as contribuições criadas para gerar a receita da previdência, quais sejam, 45 bilhões de reais do Cofins e quase 9 bilhões da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido. Isto sem falar, ainda, na contribuição da União, nunca depositada, e nos recursos anteriormente arrecadados, empregados em obras públicas.

O diagnóstico que justifica a reforma da previdência é a pura e simples deformação da realidade, a partir do mecanismo de lavagem cerebral da população por ação da imprensa. Diz-se que seria um "privilégio", devido à aposentadoria integral, sem se levar em conta que os servidores públicos contribuem com um valor de 11% sobre o total de seus vencimentos. A idéia de privilégio que se dissemina nos meios de comunicação é a de que os servidores públicos não contribuiriam ou contribuiriam com valores muito baixos, para ganharem muito mais do que os demais trabalhadores. Na verdade, em termos financeiros, a previdência do setor público seria um bom negócio para o governo, não fosse a péssima gestão do setor, pois os servidores públicos contribuem para a previdência social com uma percentagem muito maior do que a dos demais trabalhadores e sobre o total da sua remuneração, não sobre o teto de R$ 1.561,56. Além disto, ao contrário da iniciativa privada, o governo não contribui para a previdência de seus empregados.

A noção de "privilégio" é veiculada, ainda, pela ampla disseminação de informações relativas a indivíduos que recebem vinte, trinta ou sessenta mil reais por mês, transmitindo a idéia de que tais abusos seriam comuns na aposentadoria de funcionários públicos. Tais casos, em número muito pequeno, devem ser coibidos por medidas corretivas e não pela indiscriminada punição de todos os servidores públicos. A efetiva imposição de um teto para salários, aposentadorias e pensões e o fim de decisões judiciais suspeitas, através do controle externo do Judiciário, acabaria com essas aberrações.

Outra palavra chave na campanha contra o serviço público é "corporativismo", como se a resistência organizada de uma classe em defesa de suas conquistas afrontasse o interesse nacional.

O atual governo já está ensaiando o uso desses argumentos, caso, por exemplo, do Doutor Tarso Genro, que já tem falado em "privilégios absurdos". O estigma do "privilégio" acaba sendo estendido a todos os que auferem da previdência uma renda superior ao teto do INSS. A CUT defende a extensão deste teto a quatro mil reais, valor acima do qual haveria "privilégio", e aqui surge uma nova questão, a da visão sindical do Estado.

Em todos órgãos públicos há uma permanente tensão hierárquica entre pessoal técnico e pessoal administrativo. O pessoal administrativo, responsável pela atividade meio, ressente-se da elite de cada órgão formada, em sua maior parte, por pessoal de nível superior. Assim, quando as promoções em instituições de pesquisa foram decididas "democraticamente" pelas bases, durante o governo Sarney, muitos cientistas com pós-doutorado foram preteridos. Sua relevante contribuição à ciência no período recente não foi considerada, pois "já ganhavam muito", embora seu salário fosse baixo, se avaliado por um padrão característico da classe média. Ao invés disto, foram promovidos datilógrafos, motoristas e assistentes administrativos pois "ganhavam muito pouco". Recentemente, o Congresso Nacional, durante a discussão da "carreira de Ciência e Tecnologia" (C&T), assistiu ao posicionamento de sociedades científicas contra a inclusão de pessoal administrativo na referida carreira, criada para evitar a evasão de cérebros para o Exterior. Não havia nenhuma razão para a existência, por exemplo, de um "motorista de C&T", mais bem pago do que os demais motoristas. Evidentemente os sindicatos de servidores são, em sua maioria, dominados por pessoal administrativo, o que levou à inclusão de motoristas na carreira de C&T. A lógica é atingir o salário dos mais bem pagos, anulando diferenças de formação ou experiência.

Há muita tensão nas relações cotidianas entre oficiais de chancelaria e diplomatas; entre técnicos de laboratório e cientistas; entre técnico agrícola e agrônomo; entre enfermeiros e médicos, entre juiz e escrivão; nas Forças Armadas, entre sargento e oficial; e entre todos estes e uma massa de assistentes adminstrativos, datilógrafos, secretárias, ascensoristas, encarregados de limpeza, manutenção, transporte, vigilância e material. Uma hierarquia salarial e de poder é indispensável ao funcionamento de qualquer organização burocrática. Aliás, a divisão hierárquica do trabalho, segundo um modelo de burocracia racional weberiana, é inerente à própria existência do Estado.

Quando o Presidente da CUT afirma não haver nenhuma razão para que quem usa uniforme ou toga ganhe mais do que os outros, está reafirmando a plena lógica sindical, como é o seu papel. Este raciocínio é aplicado tanto para os aposentados, como para o pessoal da ativa, e nos remete ao caso limite da revolução cultural chinesa, onde os professores universitários e cientistas eram mandados ao campo para se igualar aos camponeses na colheita. Lembra, também, a revolta dos sargentos contra os oficiais em 1963, com direito a tiroteio na mesma Esplanada da posse de Lula. A visão da CUT e do companheiro Mao, nos seus últimos anos, representa uma evidente deformação pois a sociedade contemporânea só existe em função das diferenças de educação, atividade, especialidade, status e renda, como não pôde deixar de reconhecer a própria China. Não deixaria, porém, de ser divertido ver certos acadêmicos, como o próprio Fernando Henrique, colhendo cana em Ribeirão Preto!

A divisão entre duas classes de servidores está sendo usada pelo governo para justificar a reforma da previdência. Afirma, novamente, o Ministro Tarso Genro que apenas uma pequena percentagem dos servidores seria atingida pela reforma, pois a maior parte percebe menos de mil e quinhentos reais por mês. O mesmo ministro, contraditoriamente, já escreveu artigos interessantes, em que demonstra uma visão de Estado e História que vai além da visão sindical imediatista. Quem faz a essência do Estado é sua elite, que ganha os melhores salários e não os demais servidores, embora sua contribuição seja, também, indispensável. Portanto, o corte na renda desses setores do alto da pirâmide governamental, através da reforma da previdência, vai muito além de uma simples equação financeira. Representa mais um golpe no Estado brasileiro: na moral de seus servidores, após uma campanha de difamação e divulgação de inverdades, sem a qual não será aprovada.

A elite do serviço público possui educação universitária em sua quase totalidade. A propósito, observou meu amigo, o velho servidor saxofonista, que não há por que o Presidente Lula punir os "com diploma", após ter recebido dos carinhosos braços do Ministro Jobim, em meio a copioso choro, o maior de todos os diplomas, o de Presidente da República. Não gostei muito da observação, que considerei maldosa e descabida, mas transcrevo-a para demonstrar o ânimo reinante entre os servidores públicos.

Outra contradição é a existente entre os quadros políticos e os funcionários de carreira. Há uma tradicional disputa pelas funções gratificadas de chefia no serviço público entre os funcionários de carreira e candidatos indicados politicamente. No caso do PT, a reivindicação a esses cargos é racionalizada pela suspeita permanente sobre a máquina do Estado, identificada com seus servidores. Haveria que se destruir esta máquina para fazer valer a vontade do povo, por meio da ocupação de tais posições por quadros do Partido. A ambição pelas almejadas funções gratificadas levaria ao desprestígio das carreiras tradicionais no serviço público e do próprio Serviço Público.

Diz-se, ainda, da inevitabilidade da reforma da previdência, dado o déficit crescente e a virtual impossibilidade de pagá-lo ao longo dos anos. Aqui, surge a questão da decisão política, dos interesses envolvidos e de quem vai ganhar e perder.

Recentemente, a revista conservadora "The Economist" publicou um artigo sobre o atual governo, com o título "Picking the Loosers" ("Escolhendo os perdedores"), em que aplaude o governo Lula por estar impondo perdas aos militares (devido ao cancelamento da concorrência para aquisição de aviões) e, especialmente, aos funcionários públicos, devido à reforma da previdência. Por outro lado, os ganhadores são, na análise do The Economist, os bancos (devido à política financeira aplicada) e os extremamente pobres, em virtude do programa Fome Zero.

O "The Economist" tem toda a razão, pois o governo Lula assumiu o mais convencional dos discursos econômicos e o Ministro Palocci já fala em aumentar o superávit primário acordado com o FMI. É a pura e simples continuidade da política econômica do governo Fernando Henrique, que levou a que os bancos em atividade no Brasil tivessem, durante o ano de 2002, um lucro de R$ 25 bilhões, quando o déficit da previdência do setor público federal foi, apenas, ligeiramente superior, de R$ 30 bilhões. Só de juros da dívida foram pagos cerca de cem bilhões de reais em 2002.

A previdência do setor público é um direito dos funcionários, garantido pela Constituição, mas o governo repete que não "quebrará contratos", com os bancos, naturalmente. Já o grande contrato social abrigado pela Carta Magna deverá ser quebrado, para que, em última análise, sejam transferidos recursos da previdência para aumento do superávit primário e pagamento de juros a esses mesmos bancos.

Para tanto, o governo do PT não medirá esforços. Começam próceres petistas, com o respaldo da imprensa, a repetir a ladainha dos "privilégios" . Está sendo organizado no âmbito do governo um conselho, cujo primeiro e maior objetivo parece ser o de criar um consenso a respeito de quanto, como e quais servidores públicos devem perder com a reforma. Não se vai discutir, é claro, se o chamado "déficit" deverá ser coberto, em parte ou no todo, por uma diminuição do superávit primário, de interesse dos bancos. O novo colegiado existirá para pressionar o Congresso Nacional, lócus político legítimo de busca de consensos nas democracias. É a institucionalização dos dias que antecederam à votação da reeleição de Fernando Henrique ou da reforma que levou à privatização da telefonia, quando os hotéis de Brasília ficaram lotados por empresários e aliados do Presidente, que aqui estavam para "fazer a cabeça" dos parlamentares sobre os quais tinham influência.

A reforma da previdência é mais uma medida contra os servidores públicos, imposta pelos setores financeiros nacional e internacional. A iniciativa é plenamente coerente não só com o compromisso do brutal superávit fiscal de quase 4% do PIB, como ainda,com a proposta de autonomia do Banco Central, a segunda grande reforma inaugural do governo Lula. É, ainda, compatível com reforma trabalhista, que abolindo a multa por demissão injustificada, vem diminuir a estabilidade do emprego. Todas integram o pacote neoliberal que Fernando Henrique tentou implementar e que não conseguiu inteiramente, devido à resistência dos grupos atingidos, tendo o PT como paladino de sua causa.

A continuidade da política neoliberal é justificada de maneiras diversas. Quanto ao gigantesco superávit primário, sempre é possível afirmar que esta é uma condição imposta pela realidade e que o governo não tem como dela sair. Vamos admitir tal situação como inevitável, devido ao acordo com o FMI herdado do governo anterior, que não obedecido, traria o caos como na Argentina. Este é um diagnóstico frágil, pois o caos argentino foi conseqüência não de uma ruptura, mas da obediência cega às imposições do FMI. Vamos, porém, aceitá-lo provisoriamente, para fins de argumentação. Restaria, então, descobrir a razão das demais reformas, como a autonomia do Banco Central, a da previdência e a trabalhista, pois não há nada que as poderia impor, a não ser uma intensa vontade de bajular o mercado (outro nome para os bancos), ou, pior, algum acordo espúrio, na calada da noite, no qual o PT teria traído seu programa e alguns dos grandes segmentos políticos que o apoiaram historicamente. Vá lá que Lula não queira ter o destino de Allende, mas não precisa passar para o outro lado!

Outra maneira pela qual o capital financeiro ganha com a reforma da previdência é com a própria privatização do setor. A tendência é a que os fundos, a serem criados para complementar a aposentadoria dos que ganham acima de R$ 1561,56, sejam geridos pelos mesmos bancos que lucram com as taxas de juros na estratosfera, com um superávit gigantesco para pagá-las. Assim, será aberto um novo e gigantesco mercado para captação e investimento financeiros.

A continuidade da reforma da previdência e das demais reformas neoliberais no governo petista lança uma sombra negra sobre o programa de erradicação da fome e a chamada "ênfase no social". A separação do social e do econômico, como estão apregoando os próceres petistas, é metodologicamente ridícula da perspectiva de todo e qualquer modelo teórico econômico ou sociológico. Consiste, além disto, em tentativa de enganar o povo, como se fosse possível resolver os problemas sociais sem se resolver, antes, os problemas econômicos. A fome só será efetivamente eliminada por uma efetiva política de emprego e renda. O ser humano só será dignificado através de seu trabalho e do que dele auferir. É aceitável, temporariamente, a distribuição assistencialista pontual de cestas básicas, de informação sobre conhecimentos higiênicos e práticas alimentares sadias, mas essas medidas não representam nenhuma solução para o problema. Devem ser consideradas como ações emergenciais, para que as pessoas não passem fome até conseguir um emprego, este sim, o grande objetivo de qualquer política social. A este respeito, o bispo D. Mauro Morelli tem realizado oportunas críticas. Na verdade, um bom programa de renda mínima seria muito melhor, mais sério e honesto.

O programa Fome Zero, pode chegar aos dois bilhões de reais, frente aos cem bilhões pagos de juros da dívida durante o ano de 2002. E juros, em cifras ainda maiores, continuarão a ser pagos, no presente ano. Juros e superávit primário altos são absolutamente recessivos e não criam emprego; pelo contrário, eliminam postos de trabalho. Por isto, a chamada "ênfase no social", centrada no programa Fome Zero, dissociada de uma efetiva política de emprego e renda, pode ser facilmente entendida como uma forma de caridade assistencialista com fins de propaganda, para legitimar a política neoliberal que tem continuidade no atual governo.

Por fim, há que se considerar que a reforma da previdência representa um terrível erro de cálculo do novo governo, que poderá custar-lhe muito caro. Desmoraliza o único partido brasileiro que se pensava que "tinha caráter". Mesmo contando com a divisão no interior da classe dos servidores públicos, pode jogá-la, em ampla maioria, contra si, pois os "formadores de opinião" são a elite do serviço público. Além disto, os servidores mais humildes sabem que suas funções e atividades fazem parte de um sistema mais amplo, que depende não apenas deles, mas, sobretudo, dos encarregados das atividades-fim nos diversos órgãos. Há uma grande lealdade de todos ao Estado, e "vestir a camisa" é um valor fortíssimo no serviço público brasileiro.

Os servidores públicos federais, estaduais e municipais são cerca de seis milhões no Brasil. Com suas famílias (de quatro a cinco pessoas por família), podem chegar a vinte e cinco ou trinta milhões de pessoas. Considerando os dependentes indiretos e os que a eles vendem serviços e produtos, chegam a muito mais, talvez metade da população. Esta é uma grande massa de votos, que será importante nas próximas eleições municipais, daqui a dois anos , e em todas as subseqüentes, mesmo com a imprensa cantando loas ao governo.

Os mesmos prejuízos eleitorais se aplicarão aos sindicatos, nos próximos anos. É espantoso o colaboracionismo dos sindicatos de funcionários públicos, somando forças com a CUT, no apoio a medidas que ferem frontalmente o interesse de seus associados. Os sindicatos e associações de funcionários e a CUT devem deixar de querer sacrificar os militares ou juizes e, simplesmente, repudiar a reforma da previdência, como sempre fizeram. Não há o que se discutir quando uma proposta tão iníqua é apresentada. Que o setor financeiro pague a conta do déficit público, e não os funcionários, com a conivência dos sindicatos que deveriam representá-los

O papel dos servidores públicos na derrubada de Collor de Melo ainda não foi bem estudado, mas, certamente, foi decisivo. Meu amigo, o velho servidor, contou-me que, naquele período, atuava como pesquisador em uma instituição de ensino superior norte-americana, em situação de asilo econômico e de descanso das humilhações sofridas. Levantou-se a possibilidade de convidar Collor para realizar uma conferência, e tudo indicava que poderia ganhar um título de doutor "honoris causa" da prestigiosa universidade. Meu amigo, outros professores, pesquisadores e estudantes brasileiros mobilizaram-se e tinham tudo pronto para, frente a câmeras de televisão, entregar a Collor uma "subpoena", uma espécie de intimação judicial norte-americana, acusando-o de corrupção. A universidade, sabendo da movimentação, cancelou o evento. Este episódio, quase uma vingança pessoal, foi importante para a recuperação da auto-estima do velho servidor.

A corrupção, pelo menos por enquanto, não é um problema para o governo Lula, apesar de certas alianças e aposentadorias em bancos estrangeiros, maiores do que a de qualquer Ministro do Supremo. Porém, a decepção já é muito grande.

Como dizem que no Brasil tudo termina em samba, meu amigo saxofonista fez uns versos de pé quebrado, a serem musicados em forma de brejeira marchinha carnavalesca para se cantada por cordões de chorosos palhaços e traídos pierrots, qualquer coisa assim:

"Linda morena,

Vem cá, vem cá!

Me dá um beijo, me dá!

Lula, lá! Lula lá!

Para os banqueiros, Banco Central,

para os pobres, assistência social

e para os funcionários?

Crau!"

Entretanto, não conseguiu rir por muito tempo de sua desgraça. Em devaneio, ouviu um som triste espalhando-se pela Esplanada dos Ministérios.

Era o toque de silêncio pelo governo que mal começou!

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