A preocupação dos brasileiros com o que pensam a nosso respeito abre injustificado espaço para as opiniões sobre o Brasil emitidas por doutores de além-mar. Esse sestro mental provinciano é justificado por sofisticada visão de abertura ao mundo, quando a verdadeira atitude cosmopolita pressupõe o diálogo do pensamento universal com o de uma inteligentzia nacional comprometida com os interesses do seu povo. Caso contrário, repete, com nova roupagem, o velho “colonialismo cultural”, pois o colonizado continua a se ver pelos olhos do colonizador.
A capacidade de emitir opiniões e ser ouvido por outros povos posiciona em superioridade o povo, país, instituição ou classe social do qual se origina o observador. Seus intelectuais tornam-se capazes de emitir julgamentos morais e influenciar outros povos, instituições, países ou classes sociais. Faz, ainda, com que esqueçam suas próprias iniqüidades projetadas sobre um ente social externo.
Portanto, estudos acadêmicos e, mais cruamente, opiniões sobre outros povos, ao tempo em que fragilizam a identidade desses povos, reforçam a identidade do povo a que pertence seu autor. Por isto, compreendo perfeitamente quando populações tribais das Américas ou da África resistem à entrada de cientistas sociais estrangeiros em suas aldeias. Um dos muitos preços pagos pelos países chamados de “periféricos” é o da exploração cultural, ou seja, o exercício da função de reforçar a identidade dos países centrais. Os gregos já assim faziam com os seus “bárbaros”.
A situação fica, no mínimo, curiosa, quando lusitano - não americano ou nitidamente europeu – é o observador que pontifica sobre o Brasil, como fez o Professor Boaventura Santos, em recente artigo na Folha de São Paulo de 26/09 /09, ao orientar o voto dos ministros do Supremo Tribunal Federal sobre a implantação do sistema de raças em nosso País. Aconselhar piedosamente ministros brasileiros deve ser uma glória para um acadêmico português, que, em fugaz instante, revive o Portugal e o Brasil do passado. Ah! A palavra saudade!
Afirma o ilustre Professor que “o Brasil tem um forte componente de injustiça histórica, de racismo anti-índio e anti-negro”. É uma literal inverdade... É evidente a existência de preconceito contra negros e índios no Brasil, porém não se trata de preconceito de “raça”, mas de preconceito de “marca”, como, certa vez, definiu o Professor Oracy Nogueira. O que vale no Brasil, não é a biologia popular, a genealogia, a “raça”, como nos Estados Unidos. É a aparência física. Nem sequer, a cor da pele, isoladamente, mas também, o cabelo, os traços fisionômicos e até a posição social. Afinal, o jogador Ronaldo “fenômeno” não se considera “negro”.
Argumenta, ainda, que dados estatísticos governamentais demonstrariam que “o risco de ser assassinado é 2,6 vezes maior entre adolescentes negros do que entre brancos”. Porém, para fazer sentido, a estatística “racial”- no termo “racial” já está implícita a conclusão da análise- deveria ser cruzada com a de classe. Se os pobres têm maior risco de serem assassinados e se é pobre a maior parte dos de pele escura é evidente que os de pele escura têm maior risco de serem assassinados. A manipulação desse tipo de estatística é um dos maiores embustes empurrados goela abaixo da população brasileira que, em sua maioria, não quer saber se é negra, branca ou parda.
O original raciocínio do Mestre de Coimbra de que privilegiar “classe” em vez de “raça” nas políticas públicas colocaria o Brasil em situação pós-colonial, como teria acontecido com os países europeus, traduz notável confusão. Enquanto as situações coloniais e pós-coloniais européias se definem por oposição a povos da África e da Ásia, os mestiços e negros brasileiros são considerados e se consideram integrantes plenos do povo brasileiro. Não estão em situação “pós-colonial”, que pressupõe identidades antagônicas como, por exemplo, a da França e a dos imigrantes originários de suas antigas colônias africanas. Já a noção de “colonialismo interno”, no Brasil é, tão somente, aplicável a povos indígenas que possuem uma identidade alterna e que, sem perdê-la, poderão algum dia sentir-se parte do povo brasileiro.
Argumentos, como os do Professor Boaventura dos Santos e de todos os que defendem políticas raciais são incapazes de ocultar sua intenção de introduzir o racismo no Brasil, de dividir o povo brasileiro e de esquecer o problema fundamental da pobreza, que atinge, indiscriminadamente, pretos, brancos, índios e mestiços.
Portugal tem glórias maiores!