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O Islã e a Liberdade de Expressão: a questão das charges sobre o Profeta Maomé

(publicado neste site em 02/02/2006)

É grave a questão suscitada pelas charges sobre o Profeta Maomé , publicadas por um jornal dinamarquês. O Alcorão proíbe imagens de figuras sagradas. Após violenta reação do mundo islâmico seguiu-se a publicação das mesmas charges, em desafio, por jornais e televisões de vários dos mais importantes países europeus, supostamente, em defesa da liberdade de expressão.

O relativismo cultural, desenvolvido na primeira metade do século XX, representa, provavelmente, a maior contribuição política e ética da antropologia. O relativismo implica o respeito a maneiras diversas de ser e de pensar, crer e amar. O relativismo, não obstante, tem seu limite na pessoa humana. De um ponto de vista, eu diria cristão, os limites do relativismo são a vida e a dignidade humanas. Claro que o conceito de “dignidade humana” é, ele próprio, sujeito a interpretações, mas um limite deve ser traçado, quando tradições culturais infligem formas de sofrimento e crueldade a pessoas, na maior parte das vezes, indefesas.

É sob a ótica do relativismo cultural que o conflito entre o princípio sagrado religioso do Islã e o princípio político da liberdade de expressão ocidental deve ser discutido.

Católico, não gostaria que, em nome da liberdade de expressão, os símbolos sagrados de minha fé fossem ridicularizados. Argumentam, hipocritamente, os supostos defensores da liberdade de expressão, a existência de antiga tradição européia de criticar a igreja, seus bispos e líderes. É verdade que a crítica à Igreja é permitida, mas as pessoas centrais da escritura cristã são sagradas e, por isto, respeitadas, o que não acontece, necessariamente, com os cardeais, bispos e sacerdotes e, até com o Papa. Cristo, Nossa Senhora, a Bíblia e a própria Cruz dificilmente são objeto de ridículo nos meios ocidentais de comunicação. Desconheço, nos jornais importantes europeus ou norte-americanos, matérias que desrespeitem as imagens santas do cristianismo. Assim, é falacioso o argumento dos jornais europeus de que sendo a Igreja criticada há séculos, o mesmo se pode fazer em relação ao Islã. A Igreja pode ser criticada, mas não os símbolos sagrados do cristianismo.

O Profeta Maomé é, para os muçulmanos, uma figura sagrada. Por isto deve ser respeitado, em nome da tolerância religiosa e do respeito à diferença, com a mesma consideração que se tem, no Ocidente, pelas imagens cristãs. A única resposta consistente dos jornais europeus seria a publicação de imagens realmente depreciativas ou ridículas de nossas Pessoas Sagradas, como fizeram com o Profeta Maomé. Eu não gostaria e, estou certo, de que a maioria dos cristãos do mundo também reagiria, no mínimo, deixando de adquirir esses jornais. Só esta sanção econômica já representaria uma “censura” definitiva à publicação dessas imagens. Nos Estados Unidos, país eivado de fundamentalismos, certos grupos cristãos reagiriam ao agravo tão ou mais violentamente quanto os muçulmanos estão fazendo.

Cabe então, tentar entender a razão do desrespeito dos jornais ocidentais à figura do Profeta Maomé e ao Islã.

A Europa, após se recuperar da Segunda Guerra Mundial está, na construção de sua unidade política, vivendo a nostalgia do velho colonialismo dos seus anos de glória. A identificação dos povos do chamado “Terceiro Mundo” com a barbárie, especialmente os vizinhos próximos magrebinos, árabes e turcos, é algo fundamental à identidade européia, desde os tempos da Grécia antiga. Em Homero, gregos e troianos (asiáticos) compartilhavam os mesmos valores, mas em Heródoto, a oposição entre a Pérsia e a Grécia, Oriente Próximo e Ocidente, Gregos e Bárbaros construía a identidade européia.

Shakespeare, em sua peça A Tempestade opõem as figuras de Próspero e Caliban. Este, o retrato do nativo das terras recém-descobertas, é personagem trágico, deformado, um arremedo da humanidade integral representada pela figura européia de Próspero. A expressão “bárbaro” relaciona-se com “balbuciar”, sons de crianças que aprendem a falar. Por não se expressar corretamente em grego via-se o bárbaro como alguém que falava como as crianças e que tinha seu nível mental.

As cruzadas representaram um movimento central à identidade européia, associando cristianismo com agressão armada aos povos árabes. Por isto, foi positiva a não inclusão do cristianismo na constituição européia, pois a “cristandade” européia ficaria oposta a outros povos, como na Idade Média. Na Península Ibérica, Santiago é o Mata-Moros. Suas imagens, nos vitrais do Alcazar de Segovia, retratam um nobre espanhol pisando com seu cavalo as cabeças cortadas dos mouros. Quando visitei o Alcazar, a turista ao meu lado era uma mulher muçulmana, vestida de forma característica. Imaginei o que poderia estar pensando! A peregrinação do caminho de Santiago, não por coincidência, termina na Finisterra, Extremo Ocidental da Europa - oposto geográfico da Ásia. Celebra a unidade da Europa na cristandade, com a vitória final sobre os mouros.

O cristianismo é uma religião universal, associada a todos os seres humanos. Vinculá-lo à identidade de uma nova unidade política, a Comunidade Européia, representaria a exclusão da cidadania em seu sentido mais amplo, cultural, de todos os povos muçulmanos dos Bálcãs, além das minorias árabes e turcas da Inglaterra, França e Alemanha. A iniciativa, além disto, contradiz a história recente, pois, hoje, o cristianismo está em decadência na Europa. Nas Américas e na África, ao contrário, está em vigoroso crescimento. A descristianização da Europa não impede, porém, que a Igreja continue a ser uma instituição singularmente eurocêntrica. Basta observar a distribuição do número de cardeais e bispos frente à população católica na Europa e em outros continentes. A Igreja só abandonará o eurocentrismo, no momento em que tiver um Papa latino-americano, oriental ou africano.

O 11 de Setembro, nos Estados Unidos e os atentados contra os metrôs de Madrid e Londres são o pior que poderia acontecer. Resultam da ação de grupos, que só merecem ser condenados. Mas, a responsabilidade pela desgraça é, principalmente, do Ocidente, como evidencia a intolerância manifesta na atual crise envolvendo o desrespeito à figura de um símbolo central à religião muçulmana, ou o que está acontecendo no Iraque ou na Palestina. Cabe, assim, uma reflexão sobre a responsabilidade do próprio Ocidente pelas cenas de horror que chocam o mundo em que vivemos.

Por trás do ataque ao Iraque ou do desrespeito aos símbolos religiosos muçulmanos há a necessidade de afirmação da identidade européia e norte-americana, da identidade dita “ocidental”, em crise com o fim da União Soviética. Além de óbvios motivos econômicos, como o petróleo, contribui para a agressividade européia e norte-americana, a necessidade de seus povos se afirmarem como os píncaros da civilização, os portadores do “White men’s burden”, de Kipling. De se sentirem superiores e contarem, como no passado, com o direito de colonizar e escravizar. De saquear os recursos naturais do mundo e de impor relações de desbragada exploração dos mais pobres, por meio de instrumentos financeiros, com a colaboração de elites locais corruptas: quando olho para as elites brasileiras, sempre me lembro da nobreza tribal africana, que vendia seu povo aos traficantes de escravos.

A agressividade política e militar norte-americana e européia conduz a outra comparação. Determinados grupos humanos elaboram sua identidade por meio da violência cometida contra outros grupos humanos. Como os mongóis da antiguidade, algumas tribos indígenas brasileiras do Brasil Central têm como eixo de sua organização social, a necessidade de ataques cíclicos a populações mais pacíficas. Os Estados Unidos atuais e a Europa os imitam, construindo sua unidade interna a partir de ataques, de vez em quando, a terceiros países, especialmente em ano eleitoral. O erro foi a escolha de adversários mais fortes do que o Panamá de Noriega ou a Ilha de Granada.

O desrespeito aos símbolos religiosos do Islã integra um arco de iniciativas que vem sendo preparado há tempo. No imaginário do povo americano, moldado pela televisão, o árabe aparece como o bandido de quase todos os dias, em substituição ao índio, aos alemães e japoneses da Segunda Guerra ou aos russos da Guerra Fria. A analogia, agora, é com o papel do feiticeiro em sociedades tribais. Após algum tempo, com todos os outros membros da aldeia tratando-o com medo, é comum, que o acusado de feitiçaria acabe assumindo sua culpa, tornando-se de fato feiticeiro, realizando práticas de feitiçaria, procurando fazer o mal aos demais e ainda exibindo sua maldade com orgulho. A expectativa do grupo conduz a pessoa a assumir o papel que dela se espera. Da mesma forma, os terroristas atuais agem, como preconizavam as imagens para eles criadas pelos meios de comunicação ocidentais, muito antes que fossem terroristas.

Contaram-me que meu bisavô e bisavó paternos, cristãos libaneses, teriam sido trucidados em um pogrom do exército turco contra sua cidadezinha natal chamada Baino, na Província de Akar, norte do País dos Cedros. Meu avô chegou ao Brasil, há cem anos, fugindo da pobreza e da opressão religiosa. Aqui encontrou abrigo e trabalho, pouco antes do genocídio dos armênios pelos turcos, um dos mais horrorosos acontecimentos do século XX. Os cristãos libaneses poderiam ser os seguintes da lista da “limpeza étnica” do Império Turco, mas escaparam devido ao resultado da Primeira Guerra Mundial. Com esses exemplos tão próximos só posso desejar que o Brasil, embora não seja nenhum paraíso, continue a avançar na tolerância frente às diferentes maneiras de viver, crer e amar. Que a liberdade de expressão, como qualquer outra forma de liberdade, encontre seus limites no respeito a pessoas, opções pessoais, religiões e dignidade humana.

A culpa da intolerância coube aos europeus, neste episódio das charges com imagens do Profeta. A questão já estaria resolvida, com um simples e leal pedido de desculpas do governo dinamarquês. Agora, com o alastramento da crise devido à sua transformação em fator de afirmação da identidade “superior” européia surge mais um motivo de ódio para dividir os povos da terra.

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