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Saudades do Brasil perdido (2): a bossa nova

(publicado neste site em 03/01/2006)

A inspiração para escrever este breve ensaio surgiu do excelente filme sobre Vinícius de Moraes, em exibição neste início de 2006, onde se alternam depoimentos, canções e poesias soberbamente interpretadas. O testemunho de suas filhas, e de parceiros, como Chico Buarque, Toquinho, Edu Lobo e Baden Powell, além de amigos como Tônia Carrero, Maria Betânia, Ferreira Gullar e Antônio Cândido trazem de volta a pessoa especial que foi Vinícius e o tempo de desprendimento e paixão que viveu.

Os anos cinqüenta, especialmente o período de JK na presidência, foram de intensa criatividade na música, artes plásticas, arquitetura, no cinema e, até, no pensamento social e econômico, como demonstram o livro de Celso Furtado “Formação Econômica do Brasil”e a obra sociológica da USP, sob a liderança de Florestan Fernandes. Por que foi este período tão criativo? Por que nele surgiram formas artísticas inovadoras, na arquitetura, no cinema e nas artes plásticas e, na música, até um novo gênero musical, a bossa nova?

A bossa nova é um produto essencialmente carioca e a maioria desses movimentos tinha o Rio de Janeiro como referência. A capital política era, também, a capital cultural do País. Ali, o governo federal investia na educação pública e desde a mudança corte portuguesa para o Brasil existia na cidade uma classe culta associada ao Estado.

Até os meados do século, embora médicos e engenheiros muito aprendessem de seu ofício na universidade, o mesmo não acontecia com advogados e outros profissionais da área de “Ciências Humanas e Sociais”, (ver, por exemplo, o excelente “Das Arcadas ao Bacharelismo”, de Alberto Venâncio Filho). Na universidade vivia-se um ambiente social em que se discutia política, filosofia e literatura. Atuava-se na política estudantil e no estabelecimento das redes sociais que forjariam a unidade política do País. A formação profissional acontecia após a formatura, em escritórios de advocacia ou na prática da administração pública. O preparo escolar realizava-se antes da universidade, nos colégios, principalmente nos cursos “ginasial” e “clássico”, onde se aprendia filosofia, português, latim e francês e tudo o mais que um bom bacharel, padre, diplomata ou político devia saber.

Os artistas e intelectuais que produziram esse movimento cultural formaram-se em colégios particulares como o Santo Inácio (onde estudou Vinícius), em colégios públicos como o Pedro II, o Colégio Militar ou nos diversos “colégios estaduais”. Eram comuns os internatos, pois vinham jovens do interior dos diversos estados para estudar nas capitais. Para o curso superior, muitos se dirigiam ao Rio de Janeiro, onde os costumes que traziam do interior do Brasil se encontravam com o pensamento e os modos de ser europeus. As pessoas formadas neste sistema educacional eram cultas, sabiam pensar e mereciam ser classificadas como “elite”, em todos os sentidos do termo.

Era uma típica cultura de orientação “romântica”. Apreendia-se, mais do que se aprendia uma visão aristocrática do mundo, caracterizada pelo desprendimento frente a coisas materiais e pelo amor a entes ideais: Deus, a mulher amada, a nação, o povo brasileiro ou a humanidade. Esses diversos objetos de amor, frequentemente se associavam. As nove mulheres de Vinícius representam a procura incansável da mulher ideal inalcançável, metáfora de um mundo perfeito e da felicidade. Paradoxalmente, é uma visão religiosa do mundo, criando e reelaborando objetos ideais, que explica porque Vinícius era “dissoluto, só um pouco...”, como disse, no filme, Chico Buarque.

A pergunta seguinte é a de por que esses artistas e intelectuais deixaram de lado a música e a poesia clássica e criaram uma nova forma brasileira de arte e de música popular.

Até o século XVIII, a produção literária e musical erudita brasileira tinha temáticas ditadas pela Europa. O Padre Vieira era um autor português, embora tivesse preocupações locais, com índios e negros, mas as tinha, enquanto humanista europeu. O Padre José Maurício escreveu bela música européia. A “Arcádia Mineira” dos inconfidentes imaginava “brancas ovelhinhas”, reproduzindo uma Grécia antiga, em moda na Europa do século XVIII. É no século XIX, principalmente, com José de Alencar, que tem início a apropriação literária da temática nacional, por meio do indigenismo. O uso de temas nacionais vai se adensando até a ruptura ocorrida com a semana de Arte Moderna de 22. Macunaíma é a própria metáfora do brasileiro e cabe a esses modernistas a descoberta de símbolos e referências da nacionalidade, inclusive a arquitetura e a escultura barrocas das cidades históricas de Minas Gerais.

A tendência, dos anos 20 aos 60, é à convergência de formas eruditas européias com temáticas extraídas da cultura brasileira. Tal movimento se repetiu na poesia, no cinema novo, na música e nas artes plásticas. A pintura de Portinari (treinado na França) retratou o povo brasileiro em suas múltiplas faces e atividades. Cecília Meirelles retomou o ambiente de Ouro Preto, no Romanceiro da Inconfidência. No desenho do Palácio da Alvorada, Niemeyer associou a arquitetura de Le Corbusier às colunas do mercado de Diamantina. Glauber Rocha descobriu o Brasil profundo para os freqüentadores cultos das salas de cinema. A mesma classe média urbana que criou essa arte brasileira, também, formava o seu público.

Há casos, em que se foi além da convergência da forma européia com a temática nacional, pois surgiram novas formas de expressão. Em Grande Sertão: Veredas é criada uma nova linguagem, que o leitor, aos poucos, vai aprendendo e, por ela, se iniciando no mundo de Riobaldo e Diadorim. A linguagem seria a dos jagunços mineiros, mas a humanidade despida, em sua essência, faz de Grande Sertão a mais universal das realizações da literatura portuguesa.

Tom Jobim conhecia muito bem a música clássica. É de excelente qualidade sua obra sinfônica, relativamente pouco divulgada. Foi a partir desse conhecimento de música erudita que Tom avançou até a bossa nova. Como demonstra o filme Vinícius, ele também, iniciou-se como autor de sonetos clássicos, na melhor tradição da poesia francesa. Dessa base é que partiram para a bossa nova e para a música popular. Por isto, a bossa nova repetiu, em sua origem, o mesmo movimento das outras formas brasileiras de expressão artística da época, reunindo forma européia e temática brasileira.

Porém, a bossa nova criou uma nova forma de expressão musical. A “batida” da bossa nova é uma síncope musical diferente de qualquer outra. A bossa nova inovou no tempo musical do samba, pois o sincopado é a marca característica do samba e da música afro-brasileira. As letras das canções representaram outra novidade, pois abandonando a temática regional, passaram a retratar o cotidiano da vida afetiva da classe média da Zona Sul do Rio de Janeiro.

A “facilidade” de ouvir a bossa nova ampliou o seu público e a inseriu no plano da comunicação de massa. Enquanto as demais formas artísticas brasileiras tinham um público limitado, o que decorria da dificuldade em harmonizar popularidade e sofisticação, a bossa nova superou este problema. Era sofisticada e, ao mesmo tempo, popular. Passou a ser tocada em todas as rádios do País e, ao poucos, foi sendo conhecida no exterior. Nos Estados Unidos foi apropriada pelo jazz, do qual passou a ser considerada uma forma.

O impulso criativo, dos anos 20 aos 60, não se restringiu às artes, mas fez-se sentir no pensamento social, em autores como Gilberto Freyre, Buarque de Holanda, Celso Furtado e Florestan Fernandes. Repetiu-se no plano de política, com Getúlio Vargas e no brilhante governo de JK. Não é por acaso que esses governos apoiaram a nova arte brasileira.

A descoberta do Brasil por artistas, intelectuais e políticos era uma manifestação de afeto ao povo brasileiro. Por isto, a censura foi um grave crime cometido pela ditadura contra a nação brasileira. A convergência entre formas cultas européias e temáticas nacionais manifestava uma intimidade entre povo e elite intolerável para os oligarcas tradicionais e para o sistema internacional de poder. O surgimento de novas formas nativas de expressão prenunciavam uma civilização brasileira. Por esta razão, a vazia retórica nacionalista do governo militar excluiu o povo do conceito de nação e afastou-o da elite. Matou a criatividade de uma elite intelectual que, ao declarar seu amor ao povo brasileiro, fazia-se solidária no seu sofrimento.

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