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Razão e Fé: a partir de um texto de Maria Clara Bingelmer

O apóstolo Paulo define a fé: “...é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem”. Hebreus 11:1.

Este conceito pode ter sido crucial para o desenvolvimento da ciência ocidental abstrata e especulativa que, acreditando, por hipótese, naquilo que não vê procuraria entendê-lo: caso das ciências que usam a linguagem matemática.

A exegese desta passagem e sua tradução ao contexto atual definiriam a fé como o “fundamento das coisas que não se explicam por causas naturais, por causas replicáveis com efeitos idênticos”. Ou seja para aquilo que não se explica por uma relação próxima de causa e efeito. Por causas imediatas, no sentido aristotélico. Ou seja, para fenômenos para os quais inexiste uma explicação considerada como “científica”.

Assim, a fé que teria precedido a razão, também do ponto de vista histórico, seria desta separada durante o iluminismo, a ela se opondo claramente, em um determinado momento do século XIX. É um instante em que, no discurso positivista ainda hoje corrente, a razão competiria com a fé e, no longo prazo, sairia vitoriosa, como conseqüência, mesmo do progresso humano.

Há que se notar, porém, que este discurso da separação da razão e da fé, refere-se especialmente à fé religiosa, à fé em Deus, pois a fé na ciência, identificada com a razão, torna-se, a partir do século XVI tão ou mais forte que a fé na existência de Deus. Assim, a grande oposição, no discurso então formulado, não seria entre razão e fé, mas entre fé na razão e fé em Deus.

A ciência positivista associada à idéia de progresso da razão pretendia, no devido prazo, resolver todos os problemas humanos, no que se aproximava das religiões tradicionais. Os chamados “milagres da ciência” eram associados à imagem santificada dos cientistas, como a de Pasteur, à de benfeitores da humanidade. Os ritos associados à universidade e à ciência oferecem notáveis analogias com os das religiões tradicionais. A tradução literal da religião para ciência dá-se com o positivismo de Augusto Comte, com templos e práticas religiosas da chamada religião da ciência.

Tentando, portanto, separar a fé na razão, expressa pela ciência natural, da fé em Deus, expressa pelas religiões estabelecidas, somos forçados a concluir que o que diferencia os campos semânticos dos dois conceitos é a idéia de Deus. Porém aqui, também, reina a ambigüidade. De fato, se lembrarmos a idéia de Deus na tradição aristotélica, como a causa última de todos os fenômenos naturais, não haveria separação entre razão e fé, ciência e religião. As supostas ordem e harmonia da natureza seriam provas da existência de um princípio divino organizador. Assim, a explicação lógica dos fenômenos naturais e qualquer tipo de formulação racional seriam, em si mesmas, provas da existência de Deus. Portanto, a linha que separa razão e fé continua apagada, pois a demonstração racional de qualquer coisa significaria, em última instância, uma demonstração da existência de Deus e, portanto,umamaneira de se afirmar a fé em Deus. A fé na razão seria a fé em Deus.

Se razão e fé são mais próximas do que distantes, resta-nos ainda, na tentativa de diferenciá-las, enfatizar que a grande diferença entre os místicos e os filósofos racionalistas é que os primeiros, podendo compartilhar todas as crenças dos últimos, crêem, adicionalmente, na existência de um Deus pessoal, que pode atuar não só na história de todos os homens, na evolução cultural e natural, como queria Chardin, mas também, na vida de cada pessoa humana individualmente, oferecendo-lhes opções, apontando caminhos e despertando sentimentos. Assumindo-se esta distinção, a fé religiosa seria redefinida e considerada como uma manifestação da vida emotiva e afetiva, a partir de símbolos apresentados nas escrituras, na vida comunitária, em rituais e formas particulares de manifestação artística. A fé em Deus seria “saboreada” como disse a teóloga Maria Clara Bingelmer, nutrindo emoções e vidas. Estaria mais do que a razão, inclinada para o lado da simbologia poética, da arte cênica através da liturgia, da oratória, da arquitetura religiosa, da escultura e da música.

Porém, cuidado! Pode-se sempre contra-argumentar que o discurso racional é, em si mesmo simbólico e carregado de emoção e considerações estéticas. O bom texto científico é capaz de emocionar decididamente todos os que participam da comunidade daquela área do conhecimento. A matemática, paradigma do discurso racional, não uma ciência, mas uma forma de lógica, tem como valores maiores conceitos estéticos, como os de elegância e simplicidade. Como em Fernando Pessoa, é valorizada a economia (de adjetivos) e enfatizada a elegância na simplicidade.

Assim, quanto mais se pensa na separação entre razão e fé, mais difícil ela se torna. Tão difícil que podemos ser levados a suspeitar que tais diferenças resultariam de jogos de poder envolvendo corporações científicas, acadêmicas e religiosas pela hegemonia no campo do imaginário humano.

Permanece, não obstante, a diferença da fé em um Deus pessoal com a fé sem um Deus pessoal. Este último caso reunindo duas possibilidades: 1ª - fé na razão e em um Deus impessoal; 2ª - fé na razão sem fé em Deus.

A diferença essencial, portanto, seria a crença ou não na presença permanente de um amigo humano, querido e sempre solidário, com uma existência muito próxima e concreta.

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