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Humildade e Hierarquia no Ritual do Lava-pés

A Quaresma é tempo de reflexão para os católicos. O uso da razão e da ciência podem nos ajudar a pensar o sentido e o efeito de práticas religiosas que experimentamos em nossas vidas. Esta análise da cerimônia do Lava-pés pretende contribuir para o discernimento que acompanha o tempo da Quaresma.

1. RITOS DE PASSAGEM E RITOS DE INVESÃO DE STATUS

Victor Turner trouxe para a antropologia uma interessante e inovadora visão da análise do ritual na vida em sociedade, em seu livro de 1969 "The Ritual Process - Structure and Anti-structure".

Seguindo a tradição de Van Gennep, Turner confere uma expressiva importância aos "ritos de passagem". No último capítulo de seu livro que tem o significativo título de "Humildade e Hierarquia" separa os ritos de passagem associados com o ciclo de vida dos indivíduos (como os relacionados com o nascimento, casamento e morte, por exemplo) de outros ritos de passagem, os ritos sazonais. Estes últimos envolvem inteiras coletividades. Caracterizam-se, em determinados pontos culturalmente definidos do ciclo sazonal, pelo exercício de posições de autoridade ritual por grupos ou categorias de pessoas de baixo status na vida cotidiana sobre os seus superiores. Turner os denomina "rituais de inversão de status". Acrescenta que "são, freqüentemente, acompanhados por intenso comportamento verbal e não verbal, no qual os inferiores insultam ou até maltratam fisicamente seus superiores". Este é, para Turner, um momento em que é suspensa a estrutura e mecanismos simbólicos e mitológicos assumem a predominância. Os ritos sazonais expressam, em geral, a passagem da escassez para a abundância ou da abundância para a escassez.

Uma característica comum a diversos ritos de passagem é o do desempenho de papéis de humildade por noviços. Há mesmo casos de rituais políticos, como a escolha do rei em comunidades tribais do Gabão, em que o escolhido é insultado e fisicamente agredido pela mesma multidão que o quis como soberano. Após um momento de silêncio, o tumulto e a agressão são suspensos e substituídos pela investidura solene e respeitosa do novo rei. Turner lembra, ainda, o Haloween norte-americano, como um ritual de inversão de status, onde as crianças mascaradas, tornam-se, apenas por uma noite, as poderosas donas do espaço público, exigindo pagamentos em balas e doces para não causarem pequenos prejuízos ou problemas aos adultos. Há, também, rituais de inversão dos papéis sexuais. Eu mesmo tive a oportunidade, em meu livro sobre o Xingu de 1975, de descrever o ritual do Iamuricumã, no qual as mulheres assumem o pátio da aldeia, domínio dos homens na vida normal. Desempenham, durante dos dias do ritual, os status e os papéis sociais de poder e prestígio político característicos do sexo masculino, tendo o direito de bater nos homens e brincar insultando-os.

Turner identifica duas funções nos rituais de inversão de status. A primeira é psicológica, pois a inversão momentânea dos papéis de poder geraria maior aceitação da inferioridade pelos que a vivem no cotidiano. A segunda seria sociológica, pois a inversão momentânea dos papeis sociais, a anti-estrutura, seria fundamental para reforçar a própria estrutura e assim, as hierarquias do cotidiano.

Como veremos a seguir, este quadro conceitual aplica-se e pode ajudar a problematizar a discussão da cerimônia do Lava-pés e de alguns aspectos importantes da prática cristã.

II - O LAVA-PÉS NA TRADIÇÃO CRISTÃ

A cerimônia do Lava-pés fundamenta-se no Evangelho de São João:

1 Antes da festa da Páscoa, Jesus sabia que tinha chegado a hora de passar deste mundo para o Pai. E, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim. 2 Durante a ceia, o diabo já tinha posto no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, o propósito de entregá-lo. 3 Jesus sabia que o Pai lhe tinha colocado todas as coisas nas mãos; sabia que tinha saído de Deus e para Deus voltava. 4 Levantou-se então da mesa, tirou o manto, tomou uma toalha e amarrou-a na cintura. 5 Depois derramou água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos e a enxugá-los com a toalha da cintura.

6 Ao chegar a Simão Pedro, este lhe disse: "Senhor, tu me lavas os pés?"7 Jesus respondeu-lhe: "O que estou fazendo não o entendes agora. Mais tarde o compreenderás". 8 "Jamais me lavarás os pés"–disse Pedro. Jesus respondeu: "Se não te lavar os pés, não terás parte comigo". 9 Simão Pedro disse: "Então, Senhor, não só os pés mas também as mãos e a cabeça". 10 Jesus lhe disse: "Quem se banhou precisa lavar só os pés, pois está todo limpo. Vós estais limpos mas nem todos". 11 Jesus sabia quem havia de entregá-lo. Por isso disse: "Nem todos estais limpos".

(Evangelho de São João, XIII, 1-11).

Este trecho da Escritura é, desde os tempos de Santo Agostinho, reproduzido na liturgia Católica e de outras igrejas cristãs e integra os ritos da Semana Santa.

Na cerimônia do Lava-pés dos tempos de hoje, o papel de Jesus é representado pelos detentores dos status mais altos da hierarquia de uma dada congregação. Até 1955, o Lava-pés só acontecia nas catedrais. Trata-se de um evidente ritual de inversão de status, na forma definida por Victor Turner, pois alguém que detém uma alta posição, por um momento, apenas um dia durante o ano, desempenha um papel de humildade para mais à frente reassumir, no cotidiano, sua posição de poder. Assim, a cena paradigmática seria a de um prelado vestido com luxo e símbolos de poder assumindo o papel humilde de lavar os pés de pessoas pobres, socialmente inferiores. Esta cena manifesta o período histórico em que as altas posições da Igreja eram reservadas para os nascidos na nobreza.

Aplicando-se o sistema analítico desenvolvido por Turner à cerimônia do Lava-pés, sua função seria a de reforçar as hierarquias sociais, o papel de superioridade do que lava os pés frente ao papel de inferioridade daquele que tem os pés lavados. A inversão momentânea dos status de humildade e poder teria o efeito de reforçar as hierarquias vigentes no cotidiano.

III - O TEMPO DIVINO E O TEMPO HUMANO

Cristo desenvolve, durante o Lava-pés, como em quase toda a História Sagrada, a pedagogia do exemplo, pois se investe voluntariamente de posição de extrema humildade para, então, ensinar que tal posição, que assume por um instante, deverá ser reproduzida eternamente por seus discípulos, uns com os outros. Todos deverão lavar os pés de todos para sempre, se até mesmo Ele assim o fez. A inversão voluntária de status entre Deus e homem ao longo do Novo Testamento e, especialmente, no instante da inversão das incomensuráveis relações de Poder ocorrida durante a crucificação é um dos grandes paradoxos do Texto Sagrado e, como tal, a afirmação, da própria divindade de Cristo. Por isto, a genealogia real de Cristo, que o vincula à Casa de Davi, faz mais sentido para a cultura religiosa judaica, que requeria um messias descendente daquele rei, do que para o discurso cristão que se consolidaria ao longo dos séculos, que iria buscar o Cristo que se faz humilde, igual e solidário por sua própria vontade.

A pedagogia do exemplo é explicitada pelo próprio Cristo, quando após o Lava-pés, apresenta uma pergunta e sua resposta aos apóstolos:

"12 Depois de lavar-lhes os pés, vestiu o manto, pôs-se de novo à mesa e perguntou-lhes: "Sabeis o que vos fiz? 13 Vós me chamais Mestre e Senhor e dizeis bem, porque o sou. 14 Se pois eu, Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. 15 Dei-vos o exemplo para que façais o mesmo que eu vos fiz."

(João, XIII, 12-15)

Vivendo sua condição divina, tudo o que Cristo faz é para sempre. O tempo divino é eterno e sem rupturas. Há uma continuidade essencial que vem do infinitamente antes e vai ao infinitamente depois do Seu nascimento e da Sua morte e ressurreição, passando pelo evento do Lava-pés e por todos os demais acontecimentos de Sua vida. O tempo fica como que cristalizado em cada ato divino, pois Deus, mesmo feito homem, é eterno e Suas ações também o são. Ele faz-se igual, ou até menor, apenas por um ato generoso de vontade. O paradoxo do Deus que se faz humilde, não exprime hierarquias, como as existentes entre os homens, mas algo muito maior: Seu amor pelo ser humano. A expressão "hierarquia" é, em si, inadequada para descrever a proximidade e a distância entre Deus e o homem.

Já o tempo humano segmenta e divide. Cristo institui o preceito de que todos devem lavar os pés de todos para sempre. Não é um acaso que o simbolismo da humildade do Lava-pés preceda cronológica e logicamente o simbolismo da partilha da Ultima Ceia, pois a relação de solidariedade (partilha) é conseqüência da prévia atitude humilde dos que dela participam. Tanto a atitude de humildade ditada pela emoção e por valores, como a relação concreta de solidariedade entre os seres humanos dela decorrente deveriam repetir-se todos os dias do ano de todos os anos e não, apenas, durante uma data aprazada, com o efeito - em geral inconsciente, é verdade - de reforçar as assimetrias de poder, prestígio e dinheiro no restante do ciclo. Considerando tais circunstâncias, aquele que lava os pés não deveria imitar o Cristo, que faz uma concessão temporária para fins de conversão de Seus seguidores, mas seguir o Cristo que propõe uma relação de igualdade projetada para a eternidade.

A repercussão do mapeamento litúrgico das emoções ao longo de um calendário anual (recolhimento na Quaresma, humildade no Lava-pés, alegria no Natal e na Páscoa, tristeza na Sexta Feira Santa, por exemplo) no reforço das hierarquias sociais, por meio dos rituais que lhes são próprios, encontram paralelos em outras datas cristãs. Alguns hábitos transpuseram as paredes da igreja. Um bom exemplo é o impressionante comportamento de muitas pessoas que "tornam-se boas" durante o Natal e vão às favelas, algumas adornadas por bizarros gorros vermelhos e entoando canções natalinas, presentear as mesmas crianças pobres que matam ou contribuem para que morram, durante o ano todo, com as práticas comerciais, a violência, a corrupção, o comportamento político ou, simplesmente, a omissão, que vivem em seu dia a dia.

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Lava-pés (imagem original em ecclesia.com.br)

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