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Há mais coisas no céu e a terra do que sonha a Sociologia; Charles Wagley e o Sistema de Parentesco da Elite Brasileira

1. Charles Wagley e os parentes de Cecília

Charles Wagley possuía aquela característica que melhor define a vocação de antropólogo: uma profunda empatia com os povos que estudava. Com índios, com caboclos amazônicos ou com brasileiros urbanos habitantes da cidade. Até mesmo com a elite urbana brasileira, da qual, ele próprio, viria a fazer parte através do casamento com Cecília Roxo, nascida de família importante

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Seus estudos sobre o brasileiro genérico, ao contrário das pesquisas empíricas que desenvolveu entre índios e caboclos, tinham um lado ensaístico, seja pela amplitude do objeto, seja pela informalidade do trabalho de campo, resultante das observações do cotidiano, durante as décadas de 40 e 50, que passaria no Brasil. Isto não impediu que aplicasse aos dados colhidos espontaneamente, nessa sua vivência no País, os conceitos e métodos para estudos de parentesco que, já então, a antropologia norte-americana - resgatando sua própria tradição originária de autores como Morgan, Boas e Lowie - iria assimilar da Antropologia social britânica.

Os estudos de Charles Wagley sobre o parentesco brasileiro foram publicados pela primeira vez, em 1963, em um capítulo de seu livro “Introduction to Brazil”. Nosso interesse neste trabalho é, partindo da descrição do parentesco extenso da elite urbana brasileira, que Wagley denominou “parentela”, levantar algumas questões. Como poderá ser percebido ao longo deste trabalho, o conceito de parentela, pode consistir em instrumento importante, negligenciado até o presente, para a compreensão da identidade brasileira e para o avanço da teoria social.

Wagley paga seu tributo a Gilberto Freyre, ao afirmar que embora em outros países da América Latina, o “familismo” seja importante, no Brasil existe quase um “culto à família”. Este é o ponto de partida para distinguir três conceitos de família encontrados no português brasileiro que designariam, respectivamente, a “família nuclear”, a “família extensa” e, ainda, “grupos mais amplos de parentesco”, tema sobre qual desenvolveria original e relevante contribuição.

No Brasil de seu cotidiano, Wagley identifica entre famílias importantes, unidades sociais maiores que a família patriarcal clássica. A partir daí descreve um grupo social muito amplo, caracterizado por um nome de família. Embora não faça referência a nenhum sobrenome em particular, esses ainda hoje podem ser lembrados como os Wanderley, no Nordeste, citados por Gilberto Freyre, os Borges do Triângulo Mineiro ou os Albuquerque, Cavalcanti ou Ramalho, também do Nordeste. Os nomes de família se sucedem do Rio Grande do Sul (Menna Barreto, etc) ao Pará e ao Amazonas, delimitando grandes unidades sociais.

Esses agrupamentos, embora se identifiquem pelo nome de um ancestral ilustre formam “vastas redes de parentesco bilateral que se estende muito além de seu núcleo” (op. Cit. 168). Wagley demonstra que, para esses grupos, os brasileiros usam os termos “parentela” ou “clã”. Escolhe o termo “parentela” que, devido à sua unicidade, melhor identificaria este tipo especial do que considera o kindred das classes altas brasileiras. Para acentuar a extensão dos termos de parentesco, Wagley enfatiza a importância terminológica da diferença entre “primo” e “primo-irmão” no português brasileiro. Termos como “primo”, “tio” ou “tia” seriam aplicados a parentes muito distantes.

Em muitos casos, embora Wagley não tenha explorado este ponto, a aplicação desses termos dava-se, já na época de seu estudo, a pessoas frente às quais não se tinha qualquer relação de parentesco demonstrável, como os amigos dos pais da pessoa que fala e os filhos desses amigos. Hoje, o uso de termos, como “tio” e “tia”, de tal forma se generalizou, que passaram a designar professores e até qualquer indivíduo da geração mais velha. É usado, com freqüência, por crianças pobres pedindo esmola ou tentando vender miudezas, dirigindo-se a qualquer adulto desconhecido nas ruas brasileiras. Este, porém é um fenômeno muito mais recente.

Os limites deste grupo ego-centrado, isto é, o número de parentes, no entender de Wagley, seria conferido por três aspectos:

a memória genealógica (o descent reckoning);

o desejo de estabelecer uma relação de parentesco com alguém.

O desejo de outro de aceitar a existência de um laço de parentesco.

A parentela não se formaria, entretanto, apenas pela extensão bilateral do parentesco, razão pela qual se distinguiria de um kindred típico. Seria constituída, também, a partir de um “princípio estrutural”: as “ancestor oriented families”. Por este princípio, a identidade é traçada por referência a um ancestral importante por sua riqueza, poder ou prestígio. Este padrão Wagley percebe como também assumido pelos descendentes de imigrantes. As famílias orientadas para ancestrais seriam mais restritas do que a parentela.

No modelo construído por Wagley, a transmissão de nomes de família é, portanto, absolutamente central. Haveria uma tendência a que os indivíduos que não portam o nome ilustre a perder o vínculo com a ancestor-oriented family, mas não com o espectro mais amplo de parentes.

Wagley enfatiza as formas de manipulação do sistema de transmissão de nomes. Assim, a escolha dos sobrenomes é realizada de forma tal a vincular o indivíduo a parentelas importantes ou para honrar um dos lados – paterno ou materno- da família, ou ainda, para se honrar um ancestral importante. Em um exemplo extremo, quando acredito Wagley estaria se lembrando de nossa amiga comum, Dona Heloísa Alberto Torres [1], explica que às vezes, o primeiro nome de um homem de prestígio é adotado como sobrenome. Dona Heloísa era filha de Alberto Torres, o grande pensador da identidade nacional brasileira.

Seguindo idéias antes expostas por Antônio Cândido e T. Lynn Smith, Wagley considera que o nome, muito mais do que a filiação, tem o papel de assegurar a participação em um vasto sistema parentesco, pois sobrenomes famosos tornam-se o símbolo de amplas parentelas. Sobre a extensão do parentesco, Wagley retorna a Antônio Cândido quando este se refere a uma “periferia” de escravos e agregados na família tradicional, integrada por índios, negros e mestiços. Indivíduos de status mais baixo que, sentiam-se vinculados a uma parentela.

Outra forma de extensão dos termos de parentesco é o compadrio, que teria as funções de reforçar os laços entre irmãos, primos, tios primos, etc. ou de trazer “outsiders” para o meio familiar. Esta última possibilidade seria explorada, principalmente, pelos mais pobres buscando a criação de vínculos com pessoas influentes.

Wagley deixa claro que a parentela não é um grupo corporativo, embora alguns de seus segmentos o sejam, caso das famílias patriarcais proprietárias de terra, que poderiam reunir diversos segmentos de parentelas. Uma das principais funções da parentela seria a de “facilitar a vida” dos indivíduos considerados como parentes, em diferentes meios e situações. Wagley a considera tão importante quanto a família nuclear no Brasil tradicional.

Característica deste grupo mais amplo de parentesco seria a interação preferencial interna ao próprio grupo. Assim, os primos primeiros eram considerados quase como irmãos e as crianças autorizadas a brincar com filhos de parentes e amigos ao invés de pessoas estranhas. Dentre as razões para o freqüente casamento de primos, Wagley identifica a intimidade resultante da convivência, representando uma forma de evitar o casamento com negros, além é claro , de se manter a propriedade no seio da família.

Um padrão citado por Wagley é o de jovens ambiciosos, ascendendo socialmente, que aderiam à parentela importante de sua esposa.

A parentela se exprimia em rituais como aniversários, enterros, missas de 7º dia, batizados, etc. No ambiente urbano continuavam operacionais de formas diversas. Dava-se, por exemplo, preferência a médicos, advogados e profissionais liberais em geral, membros da parentela. Cita também o fato de que quase todas as empresas eram familiares no Brasil.

As parentelas, no começo do século, tinham uma definida função política uma vez que as oligarquias estaduais eram compostas por uma ou duas grandes parentelas. Uma das conseqüências do sistema de parentela seria o nepotismo, como um traço muito presente na sociedade brasileira, pois é (era) entendido como um reflexo das obrigações de um homem frente a seus parentes. De outro lado era percebido como uma forma de um homem importante se cercar de outros cujas qualificações e competências conhece.

Wagley entende a parentela como inteiramente operacional, durante os anos 60, quando escreve seu ensaio. Considera-a importante no entendimento da unidade nacional brasileira. Cita pesquisas em que pessoas em São Paulo podiam enumerar de 30 a 500 parentes [2] e, em Salvador, onde um membro de uma família tradicional era capaz de se lembrar de 290 parentes. O próprio Wagley no Rio de Janeiro e em Salvador encontrou pessoas que se lembravam de 100 a 200 parentes. Nos centros urbanos, além dos rituais (como aniversários, por exemplo), o telefone passava a ser um importante elemento para a vida das parentelas. Wagley percebe, também, uma tendência a membros da mesma parentela a comprarem ou construírem apartamentos no mesmo prédio ou próximos.

Particularmente no Norte, em áreas menos industrializadas, a parentela, a seu ver, ainda era muito importante. No tempo em que redige seu trabalho, as parentelas não mais dominam a política nacional. Porém, ainda o fazem no plano local. Lembra, também, o caso de algumas famílias muito importantes em política e diplomacia, por exemplo, daí retornando à questão do nepotismo.

As parentelas teriam uma função essencial relacionando os pobres com as elites locais das pequenas cidades e essas com famílias importantes da capital do estado. “Curiosamente” – afirma Wagley, contrastando, sem dizer, o Brasil e os Estados Unidos- “o parentesco une pessoas e classes sociais de comunidades disparatadas”. Daí seu papel na unidade nacional.

Teriam as parentelas, também, dada a fluidez de suas fronteiras uma função na assimilação de imigrantes que se casariam com membros de famílias tradicionais. Já os migrantes pobres, principalmente originários do Nordeste não teriam o apoio de uma ampla rede de parentes, o que os faria presa do apelo populista de líderes paternalistas.

Wagley considera a vida econômica dos anos 60 ainda dominada pelas parentelas e por seus núcleos de ancestor-oriented families. No ambiente brasileiro a ampla disseminação de monopólios e oligopólios teria uma relação direta com o sistema de parentelas.

Wagley encerra seu ensaio situando o sistema de parentela como um “padrão ideal” na cultura brasileira. A persistência do familismo teria atuado no sentido de bloquear a formação de partidos políticos nacionais, a criação de um sistema burocrático impessoal de governo e o desenvolvimento de empresas que incluiriam a ampla participação pública. A relativa ausência de associações voluntárias como clubes estaria relacionada com a preferência dos brasileiros a se associar a parentes. Wagley conclui seu ensaio afirmando: “brasileiros eram primeiro os membros de uma família, em seguida, de uma região e, por fim, de sua nação; hoje eu diria que eles são brasileiros em primeiro lugar, mas que nunca se esquecem de seus laços de família”.

Partindo da descrição da parentela por Wagley, vamos, a seguir, discutir o parentesco da elite brasileira. Conforme será visto, o conceito de parentela abre uma série de novas questões e traz diversos “insights”, para a discussão da identidade brasileira, para o estudo dos sistemas de parentesco em sociedades atuais e para a teoria do parentesco em Antropologia.

2. Os “Clãs” Brasileiros

Em outro estudo, de 1968, Wagley relaciona a posição no sistema de classes com a extensão do parentesco: quanto mais elevada a posição social do indivíduo mais extensa a rede de parentesco. Não exita em usar o conceito de “kindred”, em que pese o desvio frente ao kindred típico devido ao princípio unilinear associado de “ancestors oriented families”.

Oliveira Vianna em seu livro “Instituições Políticas Brasileiras” (1982) foi o primeiro a identificar a relevância de extensos grupos de parentesco, alguns maiores do que a família patriarcal, para nossa cultura e sociedade. Relacionou essas unidades sociais com o latifúndio, considerado como a unidade social básica do País. Descreveu um primeiro grupo, não muito distinto da “família patriarcal” de Gilberto Freyre, que denominou de “Clã de Feudo”. Este era composto pela família do proprietário rural e os seus agregados e escravos moradores da fazenda.

A segunda unidade social Vianna chamou de clã parental. “Como na gens romana, o clã parental, tinha milhares de pessoas. Era formado por famílias aparentadas” (op. Cit, pg 460). Continua Vianna : “Havia uma família tronco, proprietária da terra, que ia se espalhando pelos arredores........Compravam as fazendas próximas, e criava-se a endogamia de clã, e se espalhava o parentesco através do compadrio (op. Cit. 477/478)”. [3]

Não resta dúvida de que a parentela, em sua versão rural é o que Vianna denominou de “clã parental”. Vianna relaciona, também, os clãs parentais a nomes de família.

Como caracterizar a parentela? Wagley a considera um kindred, no qual embute a idéia de “famílias orientadas para ancestrais”. Seria um kindred, na medida em que parentes de ambas as linhas, paterna e materna, seriam reconhecidos. É, entretanto, bem mais do que um kindred, na medida em que se escolhe um nome do lado paterno ou materno para lhe servir de emblema.

Uma pergunta relevante é o papel da relação dos indivíduos de uma determinada geração com o ancestral escolhido como fundador, ou seja, o “descent reckoning” até se chegar a este ancestral. Wagley parte do princípio de que há, sempre, uma relação genealógica demonstrável entre os membros de uma determinada parentela e uma determinada figura ilustre, originando-se, desta maneira, as “ancestor-oriented families” que estariam no núcleo da parentela. Embora a demonstração genealógica fosse (seja) importante para se chegar até um barão, um intelectual ou político importante, e, ainda, que o nome de família pudesse ser, e seja, freqüentemente manipulado para enfatizar esta relação, os sobrenomes importantes têm uma vida própria no Brasil tradicional, que podem independer de seu fundador.

Determinados sobrenomes são, por si mesmos, ilustres. Não estabelecem uma relação com um fundador em particular, mas com a participação na oligarquia histórica ou atual, isto é, com vários indivíduos importantes ao longo das gerações. Outros apenas relacionam a pessoa que o possui aos grupos de status mais alto da sociedade de uma região ou província, sem que se possa estabelecer genealogias demonstráveis.

A escolha de um nome, devido ao status de um ou mais antepassados, privilegiando-se, assim, qualquer uma das linhas de descendência, é um caso típico na formação do que Goodenough (1955, 71-72) denominou “grupo de descendência não unilinear”, diverso, portanto de um kindred. Este último, jamais um grupo de descendência, em si. No caso da elite brasileira, a herança por uma das linhas é enfatizada e, pela outra, atenuada. Há também, heranças virtualmente escondidas, quando há vínculos com pobres, com negros, ou com ambos.

A parentela é, desta maneira, mais do que um kindred e os grupos concretos que gera são mais dos que os kindred-based groups descritos por Freeman (1961). A escolha de um ancestral ou de ancestrais e o esquecimento de outros marca esta diferença. Embora, em muitos de seus efeitos, assemelhe-se a um grupo unilinear, falta-lhe a condição da exogamia. Pelo contrário, o casamento de primos era o mais comum. Há, por outro lado, a crença em um ancestral ou ancestrais supostos, como no conceito de clã, segundo a tradição de Lowie e Murdock, pois apenas o nome relaciona o indivíduo com o grupo oligárquico, podendo ser até mesmo desconhecidas as relações genealógicas com indivíduos ilustres portadores do nome.

A parentela aproximava-se, na sua forma primitiva rural, do sistema tradicional de parentesco gaélico, uma vez que neste, um conjunto de grupos domésticos localizado em uma determinada área considerava-se reunido pela relação com um ancestral comum suposto. Como demonstra Davenport: (in Graburn: 202) o clã escocês, anterior a 1746, era um grupo endógamo não unilinear e não um clã unilinear........”

Exatamente da mesma maneira, um conjunto de casas de fazenda brasileiro, situado em uma mesma região, era habitado por pessoas com o mesmo sobrenome, descendentes de homens importantes [4]. Se o ancestral era suposto ou verdadeiro (o que nos manuais distinguiria “clãs” de “linhagens”) não vem muito ao caso, pois a manipulação de nomes de supostos antepassados representa um caso completamente diferente dos encontrados nas rigorosas genealogias africanas. Além disto, a manipulação chegava, freqüentemente, à invenção ou adoção de nomes famosos, de forma que a suposição, por vezes, realizava-se plenamente.

Por isto mesmo, não têm o menor sentido tentativas como a de Oliveira Vianna, em 1927, quando procurava demostrar a continuidade biológica (e “racial”) da elite paulista ao longo dos séculos. Para tanto comparou os nomes dos subscritores da ata de construção da catedral de São Paulo com os do Banco de Defesa Permanente do Café (de 1927). Concluiu que de 30 a 40% das grandes fortunas do estado e das grandes fundações agrícolas do ano em que escrevia, estariam nas mãos dos descendentes dos que contribuíram financeiramente para a construção da catedral (Vianna, 1991). Como os nomes eram manipulados, inventados e adotados esta relação é absurda.

Na sociedade rural brasileira a escolha da localidade pós-marital era uma decisão econômica. A nova família resultante do casamento recente ocupava uma parcela da propriedade da família do noivo ou da noiva, valendo a escolha mais vantajosa. Como havia uma tendência a se escolher, também para a construção da parentela, a linha de descendência mais forte economicamente, esta tendia a se confundir com a escolhida para a residência. A escolha da descendência corria, assim, em paralelo, com a escolha da residência.

Clãs são, freqüentemente, considerados como um compromisso entre as regras de localidade e de descendência. Embora as regras brasileiras de parentesco sejam muito flexíveis não se pode deixar de apontar que a Europa celta, onde se desenvolveu o primeiro sistema de clãs com este nome, era também caracterizada por grupos menores, "pequenas linhagens” possuidoras de terras às quais eram assimilados os afins. O antigo clã escocês era um conjunto de grupos domésticos que se acreditavam relacionados pela descendência frente a um ancestral suposto. Neles também, a localidade era um conceito central em compromisso com a descendência, embora lhes faltasse a exogamia.

Wagley percebe a parentela como um aspecto da cultura brasileira tão importante que resistiria mesmo em ambientes urbanos. Em seu estudo de 1968 relaciona-a à herança cultural lusa, levando em conta os dados colhidos pelo antropólogo português Jorge Dias. Ao mesmo tempo, vê uma continuidade entre a predominância da família nuclear nos Estados Unidos à sua prevalência no Norte da Europa.

A relação da parentela com tradições culturais muito antigas reflete uma história que permeia a antropologia norte-americana, pelo uso do conceito de herança cultural como alternativa a explicações funcionais. Arensberg e Kimball (1967) iriam encontrar quatro áreas culturais no Continente europeu e relacioná-las com estruturas de comunidade e de família que seriam reproduzidas nas Américas. Wagley parece partir desta visão, mas não avança. Cautelosamente, considera a parentela “uma tradição cultural muito antiga, originária de Portugal” e não passa daí. Entretanto, se o ponto de vista de Arensberg e Kimball for levado às últimas conseqüências, a parentela brasileira seria o resultado da transferência de um modelo de organização característico da fímbria atlântica européia celta, onde famílias nucleares, kindreds e clãs se combinariam de diferentes formas. Esta área cultural compreenderia a Irlanda, as terras altas escocesas e o Norte Português.

Assim, a expressão “clã” usada por Oliveira Vianna não é fora de propósito, frente ao sistema tradicional escocês/irlandês/gaélico embora fuja ao conceito que se cristalizou no discurso antropológico.

3. Parentesco, Poder, Elite e Nação.

Uma questão de interesse tem a ver com o fato das parentelas continuarem a existir no ambiente urbano, dos anos 60 e, embora perdendo a força, ainda permaneçam importantes no Brasil atual.

Como se deu a transferência da parentela, dos “clãs” tradicionais rurais brasileiros para o ambiente urbano? A resposta passa pelo conceito de patrimonialismo. A idéia de que o familismo seria um entrave à democracia e geraria um estado patrimonialista já estava apresentada na obra de Buarque de Holanda, “Raízes do Brasil”. Seria, posteriormente, um conceito central para autores como Faoro (1987) e Willems (1975).

O patrimonialismo foi, não apenas, herdado do estado português, como transferido do meio rural ao ambiente urbano brasileiro. No sistema estamental brasileiro, as instituições e as diversas carreiras foram apossadas por diferentes parentelas, havendo, desta forma, uma associação evidente entre sobrenomes, instituições e carreiras, casos como os das forças armadas, das carreiras científicas, da medicina, da magistratura ou a diplomacia (ver Zarur, 1994). Daí, também, a prática desenfreada do nepotismo onde não exista um sistema impessoal de acesso e progresso em diferentes carreiras no estado. Do princípio patrimonialista na organização brasileira decorrem diversas outras características, como o padrão de empresas familiares, por exemplo.

A relação familismo-estamento-patrimonialismo é essencial nesta discussão, pois se as parentelas sobreviveram no meio urbano foi, não apenas, por consistirem em uma “tradição forte”. Os espaços econômicos urbanos como as carreiras, as instituições de governo ou as indústrias passaram a ser apossadas por parentelas, da mesma forma que a terra no meio rural. A lógica patrimonialista era a mesma, para a fazenda ou para o órgão público do qual muitos parentes ligados a um homem proeminente tiravam seu sustento.[5]

As parentelas se circunscrevem às camadas superiores da sociedade. Fica, por isto, evidente que estão relacionadas com a estrutura de poder brasileira. De fato, as oligarquias estaduais eram grupos corporativos de parentesco, como demonstra Wagley, compostas por uma ou duas parentelas. A nível nacional, o poder era distribuído entre algumas dezenas de parentelas politicamente dominantes espalhadas pelos diversos estados.

As parentelas agiam corporativamente para o aproveitamento das oportunidades políticas e para o exercício da política oligárquica. A organização e a capacidade de mobilização das parentelas contrastava com a falta de organização dos mais pobres. Esses se afirmavam, enquanto seres políticos, apenas, por sua relação de dependência frente às parentelas da elite. Assim, chegamos a um modelo caracterizado por grandes grupos de parentesco na elite e com uma massa de pobres desorganizados a eles vinculados. Isto quer dizer que a organização e a solidariedade decorrentes de laços extensos de parentesco capacitavam os membros das parentelas para o controle político dos de fora da parentela. A extensão dos laços parentesco representava, desta forma, no Brasil tradicional um aspecto essencial do sistema de dominação de classes.

A consideração da parentela, como uma pura e simples resposta às necessidades individuais, de se “resolver problemas do cotidiano” , como faz Charlotte Miller (1979), manifesta um lamentável empobrecimento analítico. Sem negar que a parentela desempenhe este papel de ajuda mútua, explicá-la desta forma é privilegiar o indivíduo e suas necessidades como foco explanatório, como se estivéssemos nos Estados Unidos.

Por outro lado, não se pode deixar de observar que a articulação da elite por meio do parentesco e desta com os outros setores sociais, por via da participação periférica nas parentelas da elite, unia todo o país em uma vasta rede de alianças e lealdades. Desta maneira, a população brasileira de muitos milhões de habitantes podia ser vista como um grande conjunto articulado de grupos de parentesco. Portanto, o familismo brasileiro pode ser, efetivamente, um fator essencial na explicação da unidade nacional brasileira.

Esta constatação traz algumas perguntas frente ao novo momento vivido pelo Brasil. Diferentes versões da teoria sociológica prevêem a substituição da sociedade baseada no parentesco, por outra caracterizada pelo individualismo e por relações impessoais, como conseqüência do próprio desenvolvimento do capitalismo, ou a substituição do “status” pelo “contrato”, na elegante formulação de Henry Maine. Este é um desenvolvimento que tem sido visto de uma forma demasiadamente simplista, se considerada a importância do parentesco brasileiro. Cabe uma comparação com outros países.

Embora o familismo da elite seja muito mais claro e estruturado no Brasil, formas extensas de parentesco, em diferentes países, tem caracterizado o que Wagley, com estudada simplicidade, denominava “classes altas”. De fato, quando analisamos as elites política e empresarial americana, inglesa, francesa ou japonesa percebe-se que o parentesco tende a ser muito mais importante do que se tem pensado.

A reprodução das elites políticas, econômicas e científicas depende do acesso a determinadas instituições de ensino. No caso francês, às grandes écoles. Oxford e Cambridge, na Inglaterra, preferencialmente, com uma prévia em Eaton. O acesso a essas instituições depende, em larga medida, de conexões familiares. Outros fatores que contribuem para o acesso a tais instituições, propiciando assim o ingresso na elite nacional, seriam a contribuição de largas somas de dinheiro para fundos universitários ou colleges, ou ainda, características excepcionais de mérito pessoal. Neste último caso, aproveitado pelas artes, ciências e literatura, mais do que pelo governo, o direito ou a economia.

No Japão, o sistema implica a adoção, como filhos, de jovens extremamente brilhantes por proeminentes membros da elite econômica e política, para o casamento com suas próprias filhas, unindo-se o mérito ao parentesco.

Nos Estados Unidos, conforme demonstrei em meu livro sobre uma comunidade daquele País, a elite local organiza-se, também ela, por laços de parentesco, enquanto esta tendência tende a desaparecer quando são considerados outros setores sociais. Por outro lado, no plano nacional, não pode ser esquecido o estudo de Wright Mills sobre as poucas centenas de famílias que compõe, ou compunham, quando escreveu seu livro, a elite do poder norte-americana.

No Brasil, como demonstrou José Murilo de Carvalho (1980) havia uma elite nacional originária de algumas poucas faculdades de direito e medicina e, em uma fase anterior, de Coimbra. Havia, também, elites regionais claramente circunscritas a algumas poucas parentelas, como demonstraram empiricamente, Love e Barickman (1991). Esses mesmos autores também mostraram (op.cit.: 19) que a elite brasileira estava dentre as mais bem preparadas do mundo, considerada a percentagem de seus membros que possuíam diplomas universitários.

É, assim, um engano acreditar que outros países, além do Brasil, não possuam, também eles, um ou mais conjuntos de famílias relacionadas que integram a espinha dorsal de suas elites. Os dados de Putnam a este respeito são extremamente reveladores[6]. O que diferencia o familismo da elite brasileira atual seria sua grande visibilidade e, possivelmente, sua formalização, expressa no conceito de parentela. A alta visibilidade do parentesco brasileiro de elite é, em grande parte, de responsabilidade das ciências sociais. Esta situação contrasta com a das nações desenvolvidas onde o estudo –especialmente o antropológico - das elites contemporâneas é um verdadeiro tabu. As elites, na maior parte desses países são estudadas pela historia, ou quando muito, discretamente, pela ciência política. A antropologia, devido ao tipo de questões que formula e à invasão da intimidade das pessoas, por meio do trabalho de campo, é, em geral, reservada para o estudo de índios, negros, pobres e outras populações que se considera “culturalmente distantes”. O estudo antropológico pressupõe, normalmente, uma relação de poder, sendo o pesquisador originário da sociedade ou do setor social dominante.

É, portanto, comum a existência de uma comunidade-elite que se organiza com base no parentesco e no acesso facilitado a determinadas instituições de ensino superior. Esta comunidade passa quase despercebida às ciências sociais e, principalmente, á antropologia, na maior parte dos países atuais.

É de se supor que uma elite integrada internamente, e que funcione como referência para todo um povo, como acontecia historicamente com a elite brasileira, tenha um papel importante na unidade nacional. É fundamental, também, que, para a conquista da unidade do País, esta elite compartilhe alguns valores básicos, dentre os quais, uma essencial lealdade à idéia de nação. Esta lealdade surge de um sentimento de posse. Os membros da elite tradicional brasileira viam o País como “seu”, aí incluindo seu povo, não de todo, esquecida a escravidão. Possuindo-a, cabia-lhes a defesa da nação, em seu amplo sentido histórico e emotivo, que incluía a idéia de um projeto comum e a da vigilância na defesa do estado e os seus elementos: o governo, o povo e o território. Esses valores eram ensinados “a partir do berço” e reproduzidos nas universidades, geração após geração.

Assim, é de se perguntar o que acontecerá ao Brasil no momento em que a velha elite política de bacharéis originários das parentelas oligárquicas é, em nome de mais democracia, substituída por radialistas, líderes religiosos originários de seitas fundamentalistas, representantes de sindicatos, de movimentos de gênero e outras pessoas, que não foram socializadas para o desenvolvimento de um projeto de nação. Quando as identidades fragmentadas se sobrepõem à idéia de um todo nacional. Ou quando, em nome de conceitos como o de globalização, a própria elite tradicional abandona a idéia de nação, alienando-a e a seu povo, para, desta forma, tentar adquirir seu ingresso em uma nova elite mundial [7]

4. A (des)organização dos pobres e as novas igrejas fundamentalistas.

A prevalência do parentesco extenso em diferentes elites mundiais, inclusive em elites locais levou-nos em um estudo prévio (Zarur, 1984) à suposição de que a capacidade de estender laços de parentesco seria uma forma, não apenas, de se ganhar o poder, devido às alianças e ao apoio recebido, mas algo que se conquista, no mundo de hoje, por se possuir poder. Além de causa seria conseqüência do exercício do poder.

A hipótese subjacente é a de que o parentesco extenso seria a forma “básica”, da organização humana, ao contrário de certas abordagens clássicas, na verdade, etnocêntricas, que percebem grupos extensos de parentesco como um agregado de famílias nucleares. A família nuclear isolada, que não esteja envolvida, de forma muito próxima, por uma comunidade mais ampla de interação e convivência seria, ao contrário do que pretendem essas abordagens, uma forma de organização que não satisfaria algumas necessidades humanas fundamentais, como as de afeto, proteção e segurança psicológica. Resultaria das limitações que as sociedades de classes impõem às camadas dominadas, como aspecto mesmo dessa dominação.

Em favor desta hipótese vai o fato de que grupos extensos de parentesco caracterizam tanto as elites contemporâneas, como a enorme maioria das sociedades sem classes sociais economicamente distintas. Ou seja, o estatisticamente “normal” na diversidade humana, é a prevalência de grupos extensos, estáveis, de parentesco. A capacidade de viver em uma comunidade organizada pelo parentesco seria, assim, análoga à de se ter acesso a determinados bens culturais básicos. Não viver em um ambiente de parentesco extenso seria uma forma de carência cultural, contrariando o ponto de vista dos que acreditam na superioridade moral da sociedade ocidental moderna.

Embora um enorme número de sociedades seja caracterizado por grupos domésticos que se confundem com famílias nucleares, essas sociedades convivem, em geral, com uma comunidade próxima, mais ampla, incluindo dois sexos e três gerações[8], que as articula em uma única unidade sócio-política. A intensidade da interação social fora da família nuclear e no âmbito de grupos mais extensos de parentesco é, como na parentela, tão ou mais importante que a interação interna à família.

Um fato novo na sociedade de classes e, especialmente, no capitalismo moderno é a diminuição do tamanho dos grupos de parentesco para os setores mais pobres. Assim, a mesma hipótese acima apresentada de que quanto mais elevada a posição na hierarquia social mais extenso o parentesco, pode ser formulada de maneira inversa: quanto mais baixa a posição na hierarquia social, menos extenso tende a ser o parentesco. Esta, é bom lembrar, seria uma hipótese voltada à construção de um modelo e, dela, não deve ser esperada uma relação unívoca com a realidade do mundo. Além do mais, não deve ser postulada uma oposição absoluta, mas um continuum, caracterizado pelo parentesco progressivamente mais extenso na medida em que se “sobe” no sistema de classes.

O exemplo característico da descrição da família pobre seria a chamada “família matrifocal”, com todas as variações que o conceito inclui. Tivemos a oportunidade de debater a matrifocalidade, em 1975, relacionando-a com classes sociais e escravidão. A forma cristalina desse tipo de unidade social é a denominada “família liderada por mulheres”, isto é, famílias restritas à relação mãe-filhos, excluída a figura paterna. Outras formas de famílias matrifocais incluiriam aquelas com um pai-marido “fraco” na sua função de “provider”, ou ausente, devido a migrações ou a ao trabalho sazonal fora de casa.

Este tipo de família, especialmente sua versão “liderada por mulheres” - sem a presença permanente do pai-marido dentro de casa - assumiu interesse no debate político dos anos 60, quando da discussão de relações raciais nos Estados Unidos. Uma vez que dados censitários demonstravam sua alta incidência entre negros, desenvolveram-se abordagens, como a apresentada no célebre “Moynihan Report” que consideravam a estrutura familiar como causa maior da pobreza dos negros. A ausência de uma figura paterna forte levaria à falta de agressividade e à anulação do papel masculino entre negros, restando para as mulheres a tarefa de sustentar a família. Esta explicação via todos os negros como portadores de “patologias”, por terem sido criados por mulheres. A pobreza, nesta interpretação insultuosa, era explicada pela socialização e por uma frágil - ingenuamente freudiana- psicologia individual. Não era entendida como conseqüência da falta de emprego para negros, da discriminação racial ou por meio da história da escravidão.

A família matrifocal nas Américas, já décadas antes do Moynihan Report, era o campo de um intenso debate. A partir dos anos 30, autores como Herskowitz defendiam que teria sido trazida pelos africanos para as Américas. Outros, como Frazier, explicavam-na como um resultante da escravidão. Embora nada impeça que formas de família lideradas por mulheres tenham sido levadas por africanos para as Américas, não resta dúvida que os escravos eram separados das mulheres, até devido ao número muito maior de homens trazidos da África. Calcula-se em uma relação de três homens para cada mulher entre negros durante a escravidão brasileira. Além disto, as mulheres eram deslocadas para prestar serviços domésticos na “Casa Grande”. Assim, a família matrifocal seria fortemente associada à escravidão.

Woortmann em seu livro A Família das Mulheres (1987) faz um estudo definitivo do assunto, no Brasil, descrevendo a família matrifocal dos pobres da cidade de Salvador, como ainda relacionando-a explicando-a pelo desemprego, pobreza, escravidão e herança africana.

A associação com a escravidão e com o seu legado histórico na estrutura de classes brasileira é coerente com a relação postulada entre a pouca extensão e fragilidade dos laços de parentesco com a baixa capacidade de mobilização política. Mesmo porque, a família matrifocal não se limita aos afro-americanos, mas, também, a migrantes (nordestinos brasileiros ou portugueses, por exemplo) e a vários outros grupos, de qualquer origem étnica, em que os indivíduos do sexo masculino não possuam uma fonte de renda estável ou não estejam fisicamente presentes. Também os migrantes, embora, menos do que os escravos, têm uma baixa capacidade de organização política.

Ainda mais extremo que o caso da família matrifocal é o de indivíduos isolados, dentre os quais crianças, que habitam as ruas. Embora muitas dessas crianças de rua pertençam a uma família, esses laços tendem esses a ficar enfraquecidos. Os “homeless”, hoje parte integrante da paisagem urbana de muitos países do mundo desenvolvido, também estão nesta categoria de pobres em que mesmo os vínculos do parentesco mais próximo tendem a desaparecer.

Contra essa argumentação correm diferentes argumentos. Há, naturalmente, a tese de que as sociedades baseadas no parentesco seriam intrinsecamente diversas das que tem o indivíduo como unidade. Os indivíduos se relacionariam através do mercado. Daí resultariam as clássicas diferenças, como a de Weber entre “comunidade” e “sociedade”, ou a de Henry Maine, entre “status” e “contrato”. A família nuclear seria a forma básica de família na sociedade moderna e o parentesco (caracterizado por posições sociais herdadas) seria substituído por “associações voluntárias” nas quais as pessoas ingressariam por sua escolha ou por terem conquistado uma posição que lhes permita nelas entrar.

Não resta dúvida de que as associações voluntárias podem substituir várias das funções exercidas por redes extensas de parentesco, porém, não algumas das essenciais. Associações de pais e mestres e clubes de jardinagem são freqüentemente lembrados, principalmente pelos americanos que estão sempre fundando e se associando a clubes, os mais diversos, para os fins mais variados. Há, entretanto outras das chamadas “associações voluntárias”, que não são, assim, tão “voluntárias”, caso dos clubes reservados a oligarquias. Mesmo onde as posições seriam “conquistadas”, como nos clubes de negócios, a herança da riqueza será sempre um critério para o recrutamento de seus integrantes.

Os exemplos críticos de associações voluntárias centrais à vida comunitária são as igrejas, o que representa um problema sério para a teoria sociológica e até para a teologia cristã: a igreja católica, por exemplo, assume a universalidade já partir de seu nome [9], ou seja, nada teria de “voluntária”. A coexistência histórica no Brasil tradicional entre o catolicismo e seitas afro-brasileiras seria a recriação no plano religioso, de um mundo regido pela linguagem do parentesco entre escravos e pobres, porém articulado ao sistema de parentela das elites. Haveria grupos extensos de parentesco no Candomblé, (ver Bastide, 1960 e Woortmann, 1987), que funcionava como um espelho, recriação e como integrante, através do sincretismo, do mesmo sistema ideológico regido pelo catolicismo tradicional.

A participação na maior parte das igrejas protestantes é, também, herdada, transmitida pelos pais aos filhos. A participação em uma ou outra seita religiosa não é, em princípio, uma questão de escolha, uma vez que o batismo, como ritual de adesão, não pode ser de livre escolha de um recém-nascido. Mesmo supostos rituais de adesão consciente, como a primeira comunhão ou a crisma, na igreja católica, são um ritual de família, não um reflexo da escolha individual. As religiões protestantes tradicionais, como a presbiteriana ou metodista, e outras, mesmo enfatizando as confissões de fé e o batismo de adultos, tem dentre seus membros muitos que “herdaram” sua filiação Em casos como os dos presbiterianos, ou o mais evidente, o dos mórmons, as genealogias têm enorme importância [10], o que é, aliás, compatível com a ênfase no Velho Testamento.

Claro que existem as conversões, mas essas só fazem sentido sociológico, quando consideradas enquanto fenômeno coletivo, histórico, como na reforma protestante, ou na recente adesão, em massa, de pobres urbanos a religiões fundamentalistas evangélicas no Brasil. Mesmo nesses casos, a partir de um certo momento, as igrejas tendem a se estabilizar o número de seus adeptos, cuja identidade passa a ser transmitida pelo meio familiar.

No Brasil atual, a explosão de seitas fundamentalistas tem uma clara relação com a maciça migração cidade-campo dos últimos quarenta anos e a dissociação dos novos pobres urbanos de quaisquer vínculos com as parentelas tradicionais. A criação dessas igrejas representa, para muitos de seus membros, a construção de laços extensos de solidariedade, previamente desconhecidos, internos às camadas mais pobres da sociedade. Para outros, uma atualização e recriação de laços previamente existentes no catolicismo tradicional, ou nas religiões afro-brasileiras a ele associadas Portanto, essas novas seitas evangélicas, da mesma forma que as igrejas tradicionais brasileiras, não implicam um novo sistema de relações sociais - caracterizado pela adesão consciente e voluntária - em substituição a um sistema familístico: são a própria expressão de um sistema familístico. Logo, o conceito de “associações voluntárias” não lhes pode ser aplicado.

O catolicismo tradicional, como é universalmente reconhecido, era associado ao parentesco, considerado como forma de organização dominante na sociedade pré-capitalista, nas “comunidades” weberianas. No Brasil, o catolicismo e as seitas afro-brasileiras articulavam as classes e as parentelas. O Candomblé baiano (ver Woortmann, op.) trazia, ao nível do modelo, e apenas neste, clãs e linhagens africanas. Não produzia a mobilização política, como afirma Bastide nas últimas linhas das “Religiões Africanas no Brasil” mas, ao contrário, propunha-se a proteger a herança cultural ancestral[11] . Assim, as religiões africanas no Brasil contavam, apenas na ideologia, com um sistema de parentesco extenso, de origem africana, que se articulava e coexistia com sistemas de parentesco extenso da elite. Esses últimos tinham uma vida concreta, posto que funcionavam para o controle político e econômico.

As igrejas protestantes, no discurso sociológico dominante, enraizado em Weber, integrariam uma nova ordem social, alternativa ao parentesco, em função do papel central que passaria a ser desempenhado pelo indivíduo interpretador da Bíblia.

Esta é uma visão que, também, deve ser severamente questionada, pois, ao contrário, as igrejas protestantes expressam um processo de recriação do parentesco, onde os laços fictícios são estendidos a toda congregação, àquela igreja, em particular. Uma formação social deste tipo é um grande grupo de parentesco virtual, uma “comunidade” caracterizada pelo uso de termos de consangüinidade e, freqüentemente, por uma tendência endogâmica. Ou seja, onde inexiste o parentesco de fato, as pessoas, se possuírem condições econômicas e poder para tanto, o recriam por alguma forma de parentesco fictício. A realização desta possibilidade dependeria de um grau mais frouxo de controle direto dos demais setores sociais por parte das elites.

É notável que o parentesco fictício seja sempre lembrado para o compadrio católico latino-americano e esquecido para a fraternidade de “irmãos e irmãs em Deus” concebida pelas congregações protestantes. O parentesco fictício é, ainda, mais evidente nessas congregações, por serem elas circunscritas, demarcadas por fronteiras claras, ao contrário da igreja católica, que se pressupõe universal. Assim, nas comunidades protestantes, os sistemas de inclusão e exclusão, separando os “eleitos” dos demais, são muito mais rígidos e elaborados que no catolicismo, o que se reflete na corporatividade da congregação religiosa, enquanto grupo social, para muitos e diferentes fins. Por vezes, como no caso de pequenas townships tradicionais da Nova Inglaterra, a congregação religiosa podia se confundir com a comunidade política local.

A significativa percentagem de brasileiros que aderiu às seitas fundamentalistas tem, em geral, origem muito pobre. São imigrantes rurais, ou filhos ou netos de imigrantes rurais, que se dissociaram da situação de participação periférica nas parentelas da elite. Essas perderam, portanto, o controle direto sobre suas pessoas, que conquistaram o privilégio de construir em suas igrejas, um grupo autônomo de solidariedade e apoio mútuo, segundo o modelo e a linguagem do parentesco extenso, emulando as parentelas tradicionais da elite.

Assim, as igrejas fundamentalistas evangélicas seriam formas de organização dos pobres, potencialmente relevantes para a construção da democracia no Brasil, embora possam, também, servir de base para novos sistemas de dominação, através do seu controle por empresários religiosos, com o controle de meios de comunicação. De qualquer forma, não enfatizam o individualismo, mas associam as pessoas em grupos corporativos mobilizáveis para diferentes fins, emulando grupos extensos de parentesco.

5. Há Mais Coisas No Céu e na Terra.......

A visão antropológica de um ser nacional traz ênfases inteiramente diversas daquela percebida pela sociologia e pela história. Assim, os insights de Charles Wagley sobre a parentela de sua esposa, Cecília, abrem o espaço para uma série de questões chave para uma antropologia do Brasil e para uma visão original das sociedades complexas. A partir da discussão da suas idéias, os seguintes pontos podem ser levantados:

A parentela, o grupo extenso de parentesco característico das elites brasileiras poderia ter sua raiz histórica no clã gaélico, devido à inserção portuguesa na área cultural da fímbria Atlântica européia.

A força das parentelas nos ambientes urbanos brasileiros teria uma relação com um princípio organizacional patrimonialista relacionando parentelas, estamentos, instituições e carreiras. Este princípio teria sido transferido da área rural, implicando a posse da terra, para o ambiente urbano, implicando o controle de instituições e profissões.

Grupos Extensos de Parentesco seriam comuns às elites de diferentes países do mundo, associados a determinadas instituições de ensino. A formação de comunidades-elite seria uma condição para o exercício do poder devido à capacidade corporativa que ensejaria.

A principal diferença da relação do parentesco brasileiro com o sistema nacional de poder, em contraste com a de outros países seria a visibilidade de sua comunidade-elite, para a qual as próprias ciências sociais deram uma importante contribuição.

No Brasil, a existência de grupos extensos de parentesco de elite, aos quais os pobres se associariam de forma periférica, produzia um amplo sistema de relações de lealdade que articulava praticamente toda a população. O sistema de parentesco centrado na parentela era, portanto, essencial para a unidade nacional.

A família e o parentesco ficavam, desta forma, concretamente associados à idéia da nação brasileira. Representavam muito mais, portanto, do que uma extensão da idéia de família, na maneira descrita por Herzfeld (1996)

A vida em um ambiente social gerado por grupos de parentesco extenso seria uma forma de completude da condição humana, conquistada como um bem cultural pelos que detêm poder para tanto.

O isolamento individual ou de famílias nucleares, sem grupamentos de parentesco maiores que os envolva, expressaria uma condição de carência cultural dos setores subjugados da sociedade e, em si mesmo, uma condição para sua falta de poder. Tal isolamento não estaria, como na percepção da sociologia corrente, relacionado ao individualismo ou à participação em associações voluntárias.

As igrejas, seguindo esta linha de raciocínio, não seriam entendidas como “associações voluntárias”, na fórmula da sociologia convencional. Assim, as seitas fundamentalistas urbanas do Brasil atual, como outras igrejas, seriam uma forma de organização dos mais pobres que, através de laços fictícios, emularia grupos extensos de parentesco.

Dada a originalidade dessas teses é interessante observar que antropólogos, como Wagley, com treinamento e experiência em populações tribais, “tribalizam” as sociedades complexas com as quais trabalham. O Brasil, na sua visão que, também, é nossa, era e é ainda, em certa medida, uma grande “tribo”. E é, também, percebido como tal por seus membros.

Por isto, ao questionar os paradigmas correntes na teoria social a antropologia afirma sua contribuição única, pois há muito mais coisas no céu e na terra do que sonha a sociologia.


[1] Dona Heloísa era antropóloga do Museu Nacional e trabalhou com Rondon no antigo Conselho Nacional de Proteção aos Índios.

[2] Conforme consta em The Latin American Tradition essa informação foi extraída de Emílio Willems.

[3] A terceira e maior unidade Vianna denominou “Clã” eleitoral. Com o império, os clãs se parentais se associavam em cada província, associando-se ao partido conservador ou liberal. Esta divisão dual de cada estado brasileiro representava mais uma unidade sociológica essencial para a organização social, econômica e política brasileira.

[4] Ver a descrição acima realizada por Oliveira Vianna, da família tronco e da ocupação de áreas contíguas por seus descendentes.

[5] Para uma discussão do assunto ver Zarur, 1994.

[6] Robert Putnam observa que “43% dos ministros dos diferentes gabinetes que governaram a Holanda de 1848 a 1958 eram parentes de outros ministros...aproximadamente um sétimo dos deputados da Terceira República francesa eram aparentados entre si; cerca de um décimo dos parlamentares norte-americanos de 12790 a 1960 tinham parentesco com parlamentares (in Love pg. 18)

[7] Seria esta uma manifestação local de uma “Rebelião das elites”, de uma forma, é claro diversa da descrita por Lasch para os Estados Unidos ( 1995)

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