America Last

Acho que, mais uma vez o Brasil perderá uma oportunidade histórica.

Grande parte do que é consumido no mundo vai para o mercado norte- americano. Mais ainda, grande parte do que é consumido no mundo é produzido especialmente para o mercado norte-americano, caso contrário não seria produzido. Isto ocorre não apenas em função do peso militar e político dos Estados Unidos, como principalmente devido ao papel do dólar como reserva de valor universal.

Os Estados Unidos, durante a guerra fria, usaram seu mercado interno como arma geopolítica. O desenvolvimento do Japão, da Coreia do Sul e de Taiwan (todos três em frente à China e à URSS) ou da Alemanha Ocidental (fronteira com o leste europeu) deu-se, em larga medida, devido a abertura do mercado norte-americano para itens como produtos eletrônicos ou automóveis. É de se lamentar que a Argentina não tivesse adotado um regime socialista, pois verificada esta hipótese, talvez o Brasil fosse hoje um país mais prospero, uma vez que poderia ganhar o acesso ao mercado americano em condições privilegiadas.

Após o fim da União Soviética, os EUA abriram seu mercado para a China, incialmente para produtos “labor intensive” e depois para outros itens mais sofisticados. Do ponto de vista norte-americano esta foi até uma aquisição barata frente à importância da China, que iria tornar-se um grande país capitalista. O tigre fora ideologicamente domesticado por um partido comunista!

Até Obama, a política americana era a de expandir o mundo que os Estados Unidos criaram após a Segunda Guerra Mundial. A pax americana lastreava-se na retórica do “livre comercio” (em tudo o que os Estados Unidos fossem competitivos), “vantagens comparativas” (em tudo o que os Estados Unidos fossem competitivos) e avanço do multilateralismo. O pano de fundo desse discurso eram o poder do dólar e o poder militar norte-americano. A última grande cartada nessa direção , foi a criação por Obama do TPP (Acordo de Cooperação Transpacífico) com a China excluída. O crescimento chinês, inicialmente estimulado pelos Estados Unidos, iria tornar-se fonte de preocupação para o governo americano. Quem poderia supor, há vinte anos, que tal crescimento se daria de forma espetacular, continuo e a taxas tão altas.

Não resta a menor dúvida de que Trump é o fim da picada. O contraste com a elegância e “statemanship” de Obama o faz tosco e até ridículo. O “America First” já representou o fim da iniciativa americana no Pacifico, além de um golpe sério no NAFTA. Assim, os Estados Unidos estilhaçam o mundo por eles construído e que lhes era vantajoso sob todos os aspectos.

A confusa nova retórica americana, abre espaços de crescimento para todos os países que possuam estados que se dão ao respeito, o que não é, evidentemente, o atual caso do Brasil. Poderão ganhar a União Europeia, a Rússia, a Índia e a própria China. O Brasil teria uma chance de acesso a essa “janela de oportunidade” se conseguisse limpar rapidamente a praga de ratazanas que infesta nosso mundo politico. Se transformasse em unidade o dissenso, como fez a França, com a eleição maciça do partido de Macron. O acesso ao espólio norte- americano depende da coesão e da organização interna de cada país. Da formação de consensos nacionais.

Pobre Brasil, Pobre Inglaterra!
Vive la France! Es lebe Deutschland!

2017-11-05T22:14:04+00:00 By |Opinião, Opinião e Viagem - Capa|

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