Que Vivam as Crianças em Gaza e em Todo o Lugar

Escolas das Nações Unidas foram bombardeadas em Gaza após a ONU ter informado as Forças Armadas Israelenses da concentração de crianças naqueles lugares. Tudo indica que o bombardeio foi intencional. No todo são quase trezentas crianças mortas até o presente. E morrem suas mães e tias e irmãos e irmãs mais velhos. Perder um filho é dor indizível. Pais, tios, irmãos e vizinhos passarão a desejar a vingança a qualquer preço. E o ódio só faz crescer.

Choro as crianças palestinas assassinadas, mas, também, preocupo-me com os habitantes de Israel. A situação de Israel é, no longo prazo, muito frágil. O apoio decisivo norte-americano poderá durar séculos ou acabar amanhã. Os Estados Unidos apóiam Israel incondicionalmente – o bombardeio de civis não é só de Israel, mas principalmente dos Estados Unidos de Bush – porém, a situação tende a se alterar ao longo das décadas. Embora a decadência de um império possa se alongar por séculos pode, também, acontecer subitamente. A imprevisibilidade é a norma histórica neste caso, como demonstrou a queda da ex-União Soviética. Então o que acontecerá com Israel quando os Estados Unidos deixarem de mandar no mundo?

Ao implantar uma política de terror em Gaza, o governo de Israel esquece que sua população é um punhadinho de gente, quando comparada com as centenas de milhões de árabes e com os mais de um bilhão de mulçumanos espalhados pelo mundo. É verdade que os árabes são extremamente divididos. Muitos de seus estados, corruptas ditaduras ou monarquias religiosas, e vários não passam de meros instrumentos geopolíticos dos Estados Unidos, mas, no decorrer da história, a sobrevivência de Israel dependerá da paz com seus vizinhos. Inteligentemente, Israel deveria aproveitar o momento de sua maior força e em que já se adivinha o ocaso norte- americano para construir uma paz duradoura aceitável por todos. Mas a política israelense é a oposta: a violência do ataque atual parece responder mais a imperativos eleitorais dos partidos políticos do que aos interesses permanentes da nação.

Aos patéticos foguetinhos de fabricação doméstica do Hamas, responde com o assassinato de crianças. Sempre haverá outras formas de se enfrentar a ameaça, mas Israel tem necessidade de se afirmar pela maciça superioridade militar frente a adolescentes armados com pedras. Israel é um estado semiteocrático, não tão diferente, desse ponto de vista, dos regimes mulçumanos que o cercam. Seu sistema político é moldado na democracia parlamentar ocidental, mas é marcante a influência religiosa na vida partidária. O resultado é que muita gente em Israel acredita que está na “terra prometida” por ser o “povo escolhido” e elege políticos que acreditam nessas crenças. As mesmas idéias são partilhadas por um grande número de fundamentalistas de seitas evangélicas norte-americanas, inclusive pelos que cercam o Presidente Bush. Assim, fundamentalistas norte-americanos e israelenses se sentem, por mandato divino, no direito de assassinar crianças. Incrível é a omissão da Igreja Católica frente aos acontecimentos no Oriente Médio, que lembra sua mesma atitude durante a Segunda Guerra Mundial, quando os judeus eram as vítimas.

Se o povo de Israel é o algoz de hoje e poderá se tornar a vítima de amanhã, seria irônico, não fosse absolutamente trágico, que tenha sido vítima de indizível horror no século XX. E que se veja a usar o terror para que populações expropriadas de uma série de direitos essenciais aceitem seu destino. Recentemente, um general israelense sugeriu, sem meias palavras, que se usassem “métodos nazistas” de eliminação de vilas inteiras, quando um único israelense fosse morto. A fórmula de “um para vinte” ou “um para quarenta”. Outro defendeu o “holocausto” dos Palestinos.

Fica difícil acabar com o terror quando as religiões de um lado ou de outro são usadas para justificá-lo. A solução duradoura para a paz no Oriente Médio passa pela laicização das relações políticas de todos os lados envolvidos para que se torne possível a construção de estados multiétnicos justos e democráticos. A laicização da política deve começar pelos Estados Unidos, com o afastamento da direita religiosa do Poder. O fim da era Bush oferece alguma esperança nesse sentido. Só assim as crianças palestinas de hoje e as israelenses de amanhã poderão ser protegidas.

A paz no Oriente Médio apenas existirá em estados verdadeiramente democráticos, laicos e multiétnicos. Onde o jus sanguini e a religião na definição das fronteiras étnicas sejam substituídos pelo jus soli e pela igualdade republicana. Esta era a generosa intenção de alguns dos fundadores do Estado de Israel e a generosidade pode ser muito inteligente.

Há dois mil anos, nessa época de Natal em que Gaza é martirizada, uma família fugiu da Palestina para que seu filho recém-nascido não fosse assassinado. Esse menino ensinou-nos que todos os pequeninos devem ser protegidos e que todos os seres humanos têm o direito à vida e à dignidade. A paz no Oriente Médio só existirá quando essas idéias, mesmo que de inspiração religiosa, sejam a base de estados laicos e tolerantes.

Para que o assassinato de crianças palestinas, israelenses ou de qualquer parte da terra não aconteça no Natal ou em qualquer outro dia de qualquer ano de qualquer século.

2017-11-02T19:31:40+00:00 By |Opinião|

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