Os Reis Magos no Natal do Brasil

Melchior terminou o almoço de bóia fria. A chuva chegou tarde naquele ano e o plantio do milho atrasou para Dezembro frio, cinzento, molhado. Bom para ficar em casa na beira do fogão a ouvir o som da madeira estalando no fogo. Tamanha umidade, até lenha guardada do tempo da seca soltava fumaça gostosa cheirosa. E o calor gostoso e cheiroso de Joaninha. Mas Melchior tinha que molhar o corpo de suor e se molhar na chuva fina. Joaninha, mais a frente, batia a matraca plantadeira, como que a adiar a inevitável hora de desembrulhar o pano branco e dele extrair a quentinha fria. Sabia que naquela noite esperava-os o sono da exaustão. Mas, pensava, que bom que eu e Joana temos um ao outro e ao nosso trabalho. para nós e para as crianças!

Baltasar olhava o cinza escuro por detrás do vidro da portaria. Encolhia-se no casaco militar. Noite de vigília, aquele 24 de Dezembro. Sabia o que esperar. Gritaria e bebedeira no 203. Montanhas de presentes embrulhados em papel vermelho a jorrar das malas dos carros. Iria ajudar os moradores a carregá-los até a porta do elevador, para ouvir votos natalinos convencionais. Afinal, já tinham se lembrado dos empregados do bloco contribuindo em dinheiro para a lista de Natal. Talvez Dona Lídia do 601 lhe enviasse um prato de rabanadas por volta das duas da manhã. Noite boa para ficar perto de Clarinha debaixo do cobertor depois de por os meninos na cama. Coitada da Clarinha. Ia fazer a ceia de Natal da patroa e ganhar um extra. Mas, pensava, que bom que eu e Clara temos um ao outro e ao nosso trabalho para nós e nossas crianças!

Gaspar olhava a chuva batendo na janela, sentado em frente à televisão que pagava mensalmente. Iria vendê-la, pois desde que perdera o emprego se desfazia aos poucos das coisas da casa. Após esgotar o dinheiro do aviso prévio ele e as crianças viviam do salário de Aninha, sempre cansada e ansiosa. Em estado de permanente medo de perder o emprego como acontecera a Gaspar. O que ela queria mesmo era cuidar das crianças e esperar o marido no portão no começo da tarde. Gaspar tentava esconder a humilhação dos serviços domésticos, dos cuidados com as crianças e de fazer comida. Mas, por mais que dissesse para si mesmo que aquilo também era trabalho de homem, não conseguia se convencer: o peso da tradição era muito forte. As crianças seriam acordadas de madrugada pela exausta Aninha que lhes traria uma balinha ou um brinquedinho qualquer de dois reais, mas que as encheriam de risos. Mas, que bom, pensava Gaspar, Aninha tem seu trabalho e lutarei para reconquistar o meu, para nós e nossas crianças!

Quando chegavam onze horas, Melchior e Joaninha foram acordados pelo anjo Gabriel que lhes disse: olhem lá fora! Aberta a janela de tábua, o casal viu que o escuro frio, chuvoso, cinzento transformara-se na noite mais iluminada e que a grande estrela os esperava para guiá-los. Chamaram as crianças e saíram a seguir a estrela, que gentilmente aguardava que ficassem prontos.

Quando chegavam onze horas, o anjo Gabriel apareceu a Baltasar que dormitava na portaria do edifício e lhe disse: olhe La fora! Baltasar saiu a esfregar os olhos cansados que logo se iluminaram pelo clarão da noite e pela visão da estrela. O anjo o levou para casa em vôo baixo por sobre prédios, praças, ruas e automóveis. Em casa encontrou Clarinha que lá chegara também por via aérea. Acordaram as crianças e saíram todos a seguir a estrela que os esperava paciente parada no céu.

Ana, cansada do ônibus, tirou os sapatos e não teve coragem de acordar as crianças e Gaspar que ressonava no sofá com a televisão ligada. A entrega dos presentes ficaria para o dia seguinte. Até que despertaram com um sussurro de asas. Era Gabriel que lhes dizia: olhem lá fora! A chuva sumiu e a noite mais clara iluminava o mundo. Saíram todos a seguir a estrela que, com delicadeza, esperou que se vestissem.

Não esqueceram os presentes. Pequenos tesouros pessoais. Os homens levaram coisas como o relógio do pai saudoso. As mulheres, a correntinha de ouro que a mãe lhes deixara. As crianças, o brinquedo preferido. Bem sabiam que o menino ia gostar, pois as crianças se entendem. A comitiva levou à manjedoura, os tesouros do amor, da alegria e da esperança. Amor de uns pelos outros, que oferecido a Jesus, se fez de toda a humanidade. A Alegria entregue ao menino se espalhou pela terra. E o presente da esperança, em suas mãos, tornou-se bem comum de todos os homens e mulheres para todo o sempre.

E nunca se ouviu de noite de astros a brilhar com tamanhas luzes, de multidões de anjos riscando os céus como estrelas cadentes e meteoros, e todos nós transfigurados em pastores a adorar Jesus Cristo que chegava para nos salvar!

2017-11-02T19:13:43+00:00 By |Opinião|

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