O Sentido do Tempo: descristianização, medo e sociedade

A descristianização de hoje tem sido associada a conceitos como “materialismo” e “consumismo”. São tautologias uma vez que os processos que descrevem são sinônimos de descristianização. Algumas hipóteses sobre a descristianização remanescentes do positivismo do século XIX remetem ao fim da religião como condição e conseqüência do progresso humano. O mais interessante é que o Positivismo Comtiano transformou-se, ele mesmo, em religião da ciência.

O marxismo previa um fim glorioso para a evolução social. O “comunismo final” encerraria a história após o “comunismo primitivo” e a nossa cruel “sociedade de classes”. O povo abandonaria o vício do ópio religioso, mas ao preverem finais felizes para a história humana, Comte e Marx não estavam sendo tão originais, pois repetiam o esquema do Cristianismo: no começo, o paraíso perdido e no final, novamente o paraíso, penosamente reconquistado ao longo da história.

A tese de Fukuyama, que a história teria chegado ao fim com o capitalismo pós-União Soviética, vestia sob medida o ego imperial Norte-Americano e os interesses associados à globalização. A civilização americana/financeira teria durabilidade eterna, superando o terceiro reich que os alemães acreditavam que duraria mil anos. Não há como se levar a sério a tese do fim da história, evidente manifestação de oportunismo ideológico, mas é notável que, por isto mesmo, tenha sido divulgada pela imprensa como um grande achado.

O evolucionismo social não cabe no mundo pós-moderno. Ao contrário, a “teoria do caos” parece ser a melhor maneira de entender os acontecimentos, desistindo-se de previsões ambiciosas e das grandes teorias que as sustentam. Se for possível uma teologia pós-moderna, ao invés da evolução biológica seguida da evolução cultural para a triunfal chegada ao “ponto ômega” de Teilhard Chardin, o previsível seria o imprevisível. Em um retorno a interpretações tradicionais, o reino de Deus chegaria com a segunda vinda de Cristo como um “ladrão na noite”, não se sabe quando nem como.

Etnocentricamente, os filósofos ocidentais associam todas as manifestações religiosas com o “medo da morte” em sentido literal. O enterro dos mortos por neandertais, por exemplo, é considerado uma manifestação religiosa. O Cristianismo, porém, está associado à instabilidade, ao medo da historia, ao medo do sofrimento gerado pela insegurança em um mundo hostil. O conceito tradicional do “medo da morte” no pensamento filosófico não deve ser tomado em seu sentido restrito, mas sim em um sentido metafórico, uma espécie de síntese de medos diversos.

Na discussão do “medo da morte”, há que se levar em conta a diversidade humana que inclui pessoas que almejam o sofrimento e a morte, por escolha ou dever, como os guerreiros que desejam ardentemente arriscar sua vida no chamado “campo de honra” ou os santos que anseiam por imitar os sofrimentos de Cristo. O martírio é causa comum a santos e soldados, com a diferença que as regras permitem aos últimos tentar evitá-lo, visando à conquista de recompensas como medalhas e a admiração coletiva ainda nesta vida.

Nas sociedades equivocadamente chamadas de “primitivas”, a referência primeira não é o indivíduo, mas categorias de parentesco. No Alto Xingu, as pessoas medianas não querem sofrer e morrer, mas lá, a morte do indivíduo ser biológico não é percebida como o fim da identidade pessoal, pois a pessoa é primordialmente definida por sua inserção na rede do parentesco, sendo substituída por outra que desempenha o mesmo papel social. Não existe o desespero do oblívio, nem a vontade de “deixar a sua marca”, em ser lembrado após a morte, anseio comum a nossos políticos, intelectuais e outros candidatos a heróis.

Todo xinguano, em diferentes fases de sua vida, herda diferentes nomes de seus avós paternos e maternos, cuja identidade social assim permanece viva ad eternum. Há, no Xingu, uma verdadeira “amnésia genealógica”, como se uma pessoa sempre renascesse em seus netos. Mesmo porque, antes da chegada dos brancos, a vida do neto era percebida como exatamente igual à vida do avô, pois pouco mudava na cultura e na sociedade. O tempo no Xingu, considerando a repetição de nomes e a importância do parentesco é cíclico, não linear.

Em meu livro “A Arena Científica” (1994) elaborei o tema de que existem para a Antropologia duas formas de configuração temporal relacionadas à memória social. A primeira é a da penetração linear no tempo organizado por meio de genealogias, como as africanas, que incluem os indivíduos em linhagens e clans. Descrição clássica sobre o assunto é a de Evans-Pritchard em seu livro Os Nuer embora fique claro em seu estudo, que o “tempo circular” também operava entre os Nuer através do sistema de classes de idade. Em todas as sociedades operam em diferentes situações, as duas configurações temporais. Porém, uma delas predomina estruturando sociedades contrastantes e gerando diferentes formas de vida religiosa.

Em certas sociedades africanas, milhares de nomes são guardados por especialistas, que produzem verdadeiros mapas genealógicos de tribos que contam, por vezes, milhões de membros. A segunda forma de configuração do tempo é a de grupos humanos em que as genealogias não são relevantes, ou seja, em que o parentesco passado não determina as relações sociais presentes. Isto acontece na cultura xinguana, na qual os nomes são repetidos em gerações alternadas.

A distinção entre o tempo linear e o tempo circular projeta a distinção entre dois tipos de sociedades, como a formulada, por exemplo, por Lévi-Strauss, quando em seu livro Antropologia Estrutural separa as sociedades de cronologias “quente” e “fria”. O tempo linear é circunscrito a sociedades que vivem o conceito de história, de mudanças se sucedendo ao longo dos dias, dos meses, dos anos e dos séculos. Os acontecimentos nunca são iguais, pois apenas se repetem “a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”, como afirmou Karl Marx abrindo o seu 18 Brumário de Luis Bonaparte.

O tempo circular define outro tipo de sociedade que reproduz o padrão repetitivo da natureza, da manhã e da noite, do período seco e da chuva, do inverno e verão. Não há mudanças significativas, de geração em geração, mas a repetição da mesma vida ao longo das gerações. Não há plano “histórico”, pois não há passado, mas apenas mitologia, conjunto de eventos acontecidos em um tempo cristalizado no agora e no sempre. A percepção coletiva é como que a de um eterno presente. O Deus cristão é eterno e, portanto, também não tem passado nem futuro, mas apenas a percepção do presente. A eternidade aproxima as sociedades que vivem o tempo circular do padrão temporal divino. Assim, há uma evidente analogia entre a concepção que organiza este tipo de sociedade e a idéia cristã do paraíso.

Essas sociedades são conservadoras, pois não há espaço para mudança cultural, nem esperada, nem desejada. Especialmente, quando se tem uma relação de equilíbrio com a natureza, as necessidades humanas básicas são bem atendidas e o risco de violência externa é reduzido. Nesses casos, a felicidade pessoal e a segurança das pessoas são infinitamente maiores do que nas sociedades que vivem um tempo linear, histórico. Mesmo porque, embora morram os indivíduos não morrem suas identidades, o que implica uma idéia de morte radicalmente diferente.

Myrcea Eliade, em O Mito do Eterno Retorno, sustenta que o homem religioso viveria uma noção de tempo não linear, em contraste com o homem não religioso, que adotaria o tempo linear. A diferença entre o tempo linear e o circular distinguiria o sagrado do profano. Entretanto, o que marca a diferença entre o tempo linear e o tempo circular é o tipo de sociedade em que se vive e, portanto, o tipo de religião que cada tipo de sociedade produz. Nas sociedades organizadas por uma premissa temporal linear as atividades profanas são interrompidas pelos rituais religiosos, que quebram momentaneamente a linearidade, para a ela se voltar no cotidiano. Nas sociedades cuja premissa é o tempo circular, não há a separação evidente entre o sagrado e o profano. Enquanto nas primeiras a religião se exerce na igreja, nas últimas vive-se em casa, na praça da aldeia e no trabalho, na vida cotidiana, “no mundo”.

Existe uma relação entre certo tipo de individualismo e as sociedades “históricas” estruturadas por um conceito linear de tempo. Este individualismo leva à primazia da identidade individual e, portanto, à consciência individual, gerando noções como as de culpa e pecado. Tais idéias refletem a crescente perda da centralidade dos grupos e categorias sociais enquanto critérios identitários. Já o conceito de “vergonha” é universal, e talvez seja ainda mais forte nas sociedades tradicionais organizadas pelo parentesco, pois regula os deveres do indivíduo em relação à família ou qualquer outro grupo de parentesco. O enfraquecimento da noção de “vergonha” é um importante fenômeno recente, muito pouco compreendido.

Os judeus do Velho Testamento eram rigorosos em suas genealogias e observavam uma noção linear de tempo. O tempo linear das civilizações antigas era representado por uma sucessão de conquistas, imposição do jugo por alguns e sujeição à escravidão por muitos; de reis e heróis cujas genealogias cruzavam muitos séculos. O Novo Testamento é aberto, no Evangelho de São Mateus pela genealogia de Cristo, para demonstrar que, enfim, se realizava a profecia de que o Messias nasceria da casa de Davi. Entretanto, o Livro do Gênesis é basicamente “mitológico” e não “histórico”. Aos poucos o tempo histórico vai se impondo sobre o mitológico no correr da Bíblia.

Caso ilustrativo nesta passagem é o de Abraão no episódio do sacrifício de Isaac. Do ponto de vista da moral individual, o sacrifício de Isaac não passaria de simples assassinato, tema brilhantemente explorado por Kierkegaard ao considerar a questão da suspensão teleológica da moral em sua obra Tremor e Temor. O relativismo de Kierkegaard, entretanto, não é um relativismo cultural pleno, que só nasceria mais tarde, com Nietzsche. Na ótica de um chefe tribal, como Abraão, a execução ritual de um filho era grande prova de amor a Deus e de sacrifício pela coletividade. Do prisma do relativismo cultural, manifesta a mesma noção de dever de Agamenon, quando sacrificou a filha Efigênia. Não obstante, Kierkegaard se esforça em penosos trabalhos a opor Abraão, o “cavaleiro da fé” a Agamenon, o “herói trágico”.

Como apontei em meu artigo de 2003 sobre o ritual do Kwarup, no Alto Xingu tentou-se identificar o herói Mawutzinin com Deus, repetindo os jesuítas que traduziram Deus por “Tupã” na língua geral. Na mitologia xinguana, Mawutzinin cria a vida e a sociedade, mas daí em diante não mais interfere no curso dos acontecimentos, ao contrário do nosso Deus pessoal. É mais bem entendido como “causa final”, a mesma concepção de Deus de Aristóteles. O contraste maior entre a religião dos xinguanos e o cristianismo brota da relação com Deus: embora Mawutzinin seja um ser antropomorfo, não é admitida a possibilidade de sua comunicação pessoal com os seres humanos. Enquanto os cristãos rezam, isto é, conversam com Deus, não há, no Xingu, a idéia de um Deus pessoal que possa alterar o curso dos acontecimentos atendendo a pedidos. Não há pessoa humana individual e não há pessoa divina individual.

O contraste entre o tempo linear e o não linear vincula-se à crença na capacidade de intervenção divina no curso dos acontecimentos, pois essa intervenção visa sempre um rumo determinado e nunca é aleatória. A vontade de Deus talvez seja incompreensível como no Livro de Jó, mas sempre resulta de um oculto desígnio divino. Em sociedades que não se deslocam no tempo, não há, por premissa, seu direcionamento em qualquer sentido, por vontade dos homens ou de Deus. Logo, em sociedades sem história e sem alterações esperadas na vida de seus membros não existe um plano em que a vontade divina se faça sentir. Em não havendo consciência individual nem história não há papel definido para o indivíduo no exercício de seu livre-arbítrio e, em certo sentido, não há livre-arbítrio.

A mudança sócio-cultural pode ser um processo terrível para os que a vivem. O Cristianismo é uma religião surgida na Judéia ocupada militarmente, em estado potencial ou efetivo de permanente rebelião, sujeita a brutal repressão. No Império Romano é, inicialmente, crença de escravos e de outros oprimidos. Torna-se a religião oficial do Império em decadência. Não é por acaso, que a definição de paz de Santo Agostinho, entendida como a “tranqüilidade da ordem”, reflita a noção de que cada coisa ou pessoa tem seu lugar certo: a paz realizaria a rotina segura em contraste com o mundo de invasões bárbaras do tempo em que viveu o santo. O conceito de paz seria a experiência da eternidade, traduzida para a cultura humana pela premissa do tempo circular. A brutalidade romana e dos bárbaros persiste na Europa feudal, como foi descrita por Norberto Elias em “O Processo Civilizador”. A vida era cercada por desastres iminentes.

A intenção cristã de implantar o reino de Deus na terra exprime a idéia de uma comunidade rompida, de uma extrema insegurança, de um “paraíso perdido” e, no plano histórico, a nostalgia da Pax Romana. A comunidade e a ordem são reconstruídas pela liturgia no plano ritual e emotivo dentro do prédio da igreja. Esboça-se, desta maneira, a oposição entre a igreja e o mundo, o espírito e a carne, a inocência e o pecado, a paz e a guerra, a vida e a morte. A igreja não é deste mundo, é o seu oposto, e embora às vezes procure dele fazer parte, como aconteceu no concílio Vaticano Segundo, a seguir retira-se perplexa.

Há, assim, uma relação entre tempo linear, história, Deus pessoal, consciência individual, insegurança e medo. E se a religião opera como a grande força de controle do medo – “Não tenham medo”, disse o Senhor – a própria Igreja impõe medo para se impor. Medo do inferno, tão bem analisado por Jean Delumeau e medos mais prosaicos, como os do bestiário que assustava os camponeses nas catedrais medievais.

A mesma insegurança dos tempos de Santo Agostinho explica o cristianismo em crescimento no mundo do terceiro milênio em certas regiões do mundo. A África, onde o cristianismo viceja, vive um horror sem fim. A América Latina – O Brasil pensa em exportar padres para evangelizar a Europa – assiste à desestruturação dos modos de vida tradicionais, à brutal de violência interna e o fim da esperança em uma vida melhor. Já, nos Estados Unidos, o medo da fome e da violência faz-se presente na vida real de pobres, negros e latinos e no imaginário de toda a população. Os meios de comunicação de massa – seja por intermédio do telejornalismo, seja nos filmes e nas séries de TV – realizam um gigantesco exercício diário de condicionamento do povo americano, convencendo-o de que a violência é inerente à condição humana. A divulgação de uma sempre exagerada ameaça externa (hoje, terroristas árabes, ontem, comunistas diversos) aterroriza a população.

Talvez não seja simples coincidência que o cristianismo esteja em virtual desaparecimento em alguns países da Europa, onde as pessoas se sentem um pouco mais seguras. No Continente europeu, os meios de comunicação não fazem do medo seu programa principal. Os cidadãos médios se sentem mais protegidos nos estados do bem-estar social, embora isto não aconteça com imigrantes e descendentes de imigrantes turcos, árabes, africanos e asiáticos. Em que pesem atentados e ameaças de terroristas, nada há de parecido com as guerras do passado. Embora a vida esteja muito longe da tranqüila rotina das pequenas comunidades tradicionais, a sensação pessoal de segurança é maior do que em outros lugares. O indivíduo, sua consciência pessoal e o tempo histórico linear continuam centrais, mas não há a necessidade desesperada de proteção divina contra forças sobre as quais não se tem controle. Essa sensação de segurança desaparecerá, na medida em que os europeus abandonem suas conquistas sociais.

A Igreja poderia, uma vez mais, bater nas portas do mundo, como no Vaticano Segundo, a fim de voltar a crescer na construção do Reino de Deus. A superação do medo entre os homens só acontecerá com a reinvenção da Igreja e a reinvenção da sociedade.

Para que a felicidade humana após a morte não sirva de consolo e pretexto para a infelicidade nesta vida!

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