O multiculturalismo

Correio Braziliense, 29 de abril de 2002.

A etnicidade, o gênero e outras categorias afins representam nova e decisiva etapa da construção democrática. Não obstante, a legítima luta dos movimentos sociais orientados por esses conceitos precisa considerar o contexto em que estão inseridos, pois o Brasil não é os Estados Unidos.

A propósito, o saudoso Pierre Bourdieu, em um dos seus últimos trabalhos, demonstrava que o multiculturalismo nos Estados Unidos se refere à exclusão contínua dos negros à mitologia nacional do sonho americano da ‘‘oportunidade para todos’’.

Algumas versões do atual multiculturalismo norte-americano assumem a velha tese dos sulistas norte-americanos, resumida pelo mote ‘‘separados mas iguais’’, para justificar, na prática, negros separados e desiguais. Embora os Estados Unidos tenham avançado muito em seu sistema interétnico, a discriminação e a segregação encontram nova justificativa, agora ‘‘politicamente correta’’, no multiculturalismo.

O sistema interétnico norte-americano tem, como base, o chamado jus sanguini (direito de sangue). No estado do Mississípi, por exemplo, quem tiver 1/8 de sangue negro será considerado, legalmente, da raça negra. Logo, a classificação racial tem como princípio a‘‘pureza’’ da raça branca. Alguém é negro ou índio por uma espécie de ‘‘contágio genealógico’’.

Enquanto nos Estados Unidos o princípio de sangue define ‘‘raça’’, segmentando internamente a sociedade, na Alemanha, até quatro anos atrás, definia a própria cidadania alemã, pois a Constituição considerava como alemães, apenas, os filhos de alemães. Turcos, cujos pais e avós tinham nascido na Alemanha há mais de 50 anos, não eram considerados alemães.

Essa forma de organização contrasta com a brasileira, compreendida por um continuum. Os mestiços não são negros ou índios, na ótica da cultura brasileira, mas estão situados em categorias intermediárias. O mulato e outros mestiços são importantíssimos para a classificação brasileira de seres humanos.

Embora haja muito preconceito e discriminação no Brasil, aqui não vale a genealogia, mas a aparência física da pessoa. A organização étnica nacional é de tal forma ambígua que muitos dos mestiços brasileiros ocupam altas posições sociais e, alguns, acabam sendo socialmente classificados como brancos, mesmo que a cor da pele denote mistura. Esse é o caso, por exemplo, do atual presidente da República, pardo pela aparência e branco socialmente.

Essa ambigüidade na classificação, agravada pelo procedimento censitário da auto-identificação étnica, coloca sob suspeita todas as estatísticas brasileiras sobre o assunto, hoje em moda em estudos de alguns economistas.

Assim, como os alemães se livraram legalmente do jus sanguini, os americanos procuram fazer o mesmo, por intermédio de um importante movimento, o multirracialismo, que nega a idéia da pureza da raça branca como critério principal de organização étnica. É tal sua intensidade que o último censo norte-americano inclui, pela primeira vez, a categoria multirracial designando os mestiços.

Ninguém quer viver horrores étnicos como os que se assiste, hoje, na Palestina, por exemplo, mas, enquanto americanos e alemães lutam para se livrar do jus sanguini, devido ao ódio e à violência associados à idéia de pureza racial, brasileiros tentam fazer sua importação acrítica.

No Brasil, iniciativas legislativas chegam a propor documentos de identidade racial, como na Alemanha dos anos 30. Seria o caso de lembrar, também, o atual conflito entre tútsis e hutus, na região dos lagos africanos, cuja diferenciação é vaga e imprecisa, há quase um século, foi enfatizada pelos colonizadores belgas mediante uso de documentos raciais. Hoje, a guerra entre eles já custou cerca de dois milhões de vidas.

Há, além disso, propostas de investigações genéticas para classificar alguém como negro, branco ou índio. Não passariam de mera curiosidade devido à sua semelhança com regras afins da Alemanha nazista ou à sua impossibilidade, em vista da intensa miscigenação brasileira. O problema é que são defendidas por autoridades como o presidente do IBGE.

Versões apartadas da história e descontextualizadas do multiculturalismo são idéias que justificam o neoliberalismo. Dividem e jogam uns contra os outros, os mais pobres, negros, índios e brancos, mulheres e outros segmentos estigmatizados, que deveriam se unir para atingir seus objetivos comuns. Cada movimento tenta, competindo com os outros, obter uma quota ou uma fatia maior de privilégio no mercado econômico, sem questioná-lo em sua estrutura.

Sem as devidas cautelas, a etnicidade, em lugar de contribuir para o pluralismo, essencial à democracia, passa à condição de prato central do banquete conservador, conferindo legitimidade política às suas receitas. Foi assim ao longo de toda a história dos nacionalismos nos Bálcãs, vis à vis os impérios circundantes, ou da história dos índios brasileiros, que os portugueses usaram para, a partir de diferenças étnicas, perseguir outros índios e negros. Assim foi quando da manipulação política das identidades tribais africanas pelos poderes coloniais.

George de Cerqueira Leite Zarur é economista e antropólogo, Ph.D pela Universidade da Florida e ex-pesquisador visitante da Universidade de Harvard

2017-11-02T19:38:29+00:00 By |Opinião|

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