Nas ruas de Salamanca

Salamanca vive em torno de sua universidade criada no século XIII. A universidade tem muita história e tradição, mas não conseguiu associar os séculos com a excelência. Com exceção de alguns cursos periféricos, como o de tradução, por exemplo, não pesa no mundo acadêmico. Não faz muito tempo, a Universidade de Salamanca assinou convênios com universidades privadas brasileiras para a concessão facilitada de doutorados. Felizmente o governo brasileiro não permitiu que fosse concretizada a concessão de diplomas com a chancela de Salamanca em associação com lucrativas instituições nacionais.

A região da Extremadura, contígua à de Barcelona, é a grande produtora do Jamon Serrano, ou melhor ainda, do Jamon Iberico, presunto cru com sabor delicioso. É elaborado com pernis de suinos criados soltos e alimentados por “bolotas” caídas das árvores e outras iguarias apreciadas por esses animais. Em Salamanca há lojas especializadas nesse tipo de presunto. Ao ver as peças de presunto expostas para comercialização em Salamanca, lembrei-me, de doutorados oferecidos por algumas universidades, embora os presuntos sejam de boa qualidade.

Loja de Presuntos em Salamanca

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Em alguns países europeus, as universidades têm atravessado uma séria crise. Há alguns anos, houve uma tentativa de reforma no sistema pós-graduado francês para que oferecesse títulos com exigências análogas as dos PhDs americanos de bom nível. Não acompanhei o desenvolvimento da experiência, mas consta que não teria sido bem sucedida.

Embora o “Doutorado de Estado” seja muito respeitado, havia e há boas razões para se reformar o sistema francês. Fui Coordenador de Ciências Humanas e Sociais do CNPq na década de oitenta. Certa vez, impressionado com a qualidade das teses apresentadas na França, consegui, em associação com comitês científicos do CNPq, que o órgão não mais reconhecesse como doutorado o “Doutorado de Terceiro Ciclo”. O adido científico francês procurou-me para esclarecimentos, após contato com “instâncias superiores” . Selecionei oito teses de doutorado de “troisième” e oito teses de mestrado brasileiras sobre temas similares. Bastou uma breve avaliação das respectivas bibliografias para que o diplomata achasse melhor para a imagem da academia francesa não levantar uma discussão pública sobre o assunto. As teses dos mestrados brasileiros em Ciências Sociais eram muito melhores do que as apresentadas aos doutorados franceses de Terceiro Ciclo.

Pressões dos próprios estudantes brasileiros egressos do sistema francês fizeram o CNPq voltar a considerar o “terceiro ciclo” como doutoramento. Hoje, a desequiparação dos doutorados não teria sentido, pois, sem omitir as ressalvas de praxe relativas a algumas instituições, é visível a queda de qualidade das teses e do nível de exigência para a concessão de títulos na pós-graduação brasileira. Alguns doutorados obtidos por aqui têm nível equivalente ou inferior ao terceiro ciclo francês, embora muitos mantenham um alto padrão de qualidade..

Determinadas instituições européias oferecem doutorados especiais para estudantes latino-americanos, nos quais é mais fácil obter a titulação do que nos doutorados normais. O relaxamento dos padrões acadêmicos pode ter como contrapartida o pagametno de anuidades.

Por isto, entrei em Salamanca sem qualquer simpatia pela universidade, mas logo fiquei impressionado com a beleza da cidade. O estilo da arquitetura e a aparência urbana são únicos. Muito organizada, com intenso movimento de pedestres nas ruas antigas e acesso restrito de automóveis.

Catedral Nova de Salamanca

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Ficamos em um hotel charmoso ao lado de uma ponte romana em uso até hoje, perto da parte antiga da cidade. O Rector é de uma família que reservou o último andar do prédio para residência e transformou o restante em um hotel em que se é muito mimado, embora lhe falte um restaurante. Como é um estabelecimento muito pequeno, a falta do restaurante é compensada pela bom gosto e pelo conforto das acomodações. <

Rua de Salamanca I 

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Bem em frente ao hotel há uma ladeirinha pela qual se sobe para a parte antiga da cidade, cuja vida se concentra nas universidades. Além da antiga instituição mantida pelo estado, há a universidade católica e uma instituição privada de ensino superior, todas abrigadas em prédios belos e imponentes. A Plaza Mayor é muito bonita, sempre cheia de gente e movimento. A cidade tem duas catedrais interligadas, a Nova e a Velha. A “Nova”, com muitos séculos de existência, é impressionante. Há vários outros edifícios que fazem de Salamanca uma cidade única.

Rua em Salamanca II

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No Convento de San Esteban, antiga casa dos “Câes de Deus”, como eram chamados os membros da Ordem dos Dominicanos, não é esquecida a figura impar de Frey Bartolomé Las Casas. Aquele que mais tarde seria bispo de Chiapas viu vitoriosa sua tese de que os índios americanos possuíam uma alma imortal, qualificando-se, portanto, como seres humanos. Por isto não poderiam ser mortos como animais selvagens.

Convento de San Esteban

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Las Casas foi uma figura impressionante e humana. Entretanto, em Salamanca, como em outros lugares da Espanha, há como que uma postura saudosista etnocêntrica que constrói uma imagem civilizatória positiva da Espanha no Novo Mundo. Na verdade, os europeus foram os grandes genocidas na América. Os espanhóis deveriam se envergonhar de seu passado e parar com essa coisa de “hispanidad”.

Salamanca: paisagem urbana

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Miguel Unamuno é lembrado em sua Casa Museu. Era um intelectual de muita coragem. Reitor da Universidade, quase foi linchado pelos direitona fascista em 1936, após desafiar publicamente o General falangista Myllán-Astray, que urrou o asqueroso grito de guerra “Bajo La inteligência, Viva La Muerte!” Unamuno foi salvo do linchamento pela esposa de Franco que o pegou pelo braço e o conduziu para fora do recinto.

Salamanca: vista a partir de um páteo. 

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Vale uma visita ao Museu da Guerra Civil, que expõe fotografias e cartazes do período. É um acervo interessante, mas insignificante. Foi a guerra civil em que morreu mais gente no mundo. Calcula-se em um milhão de mortos, a maioria em combate. A segunda guerra civil mais sangrenta foi a Guerra de Secessão Norte-Americana, com cerca de 620.000 mortos, a maior parte em função das doenças que se alastraram pelos acampamentos militares. O Museu da Guerra Civil representa um desafio ao cotidiano espanhol, pois a povo  se comporta como se o conflito nunca tivesse acontecido. Talvez daí o acervo tão reduzido. O assunto é tabu. Talvez, tão horrível que o melhor seja o esquecimento. Recentemente foi cassado o juiz Garzon,que andou mexendo nessa ferida.

É apavorante que o discurso fascista esteja voltando à Europa. Como há setenta anos, uma gigantesca crise econômica pode levar o Continente para os piores caminhos. Vê-se cenas parecidas com as que precederam a Segunda Guerra Mundial.: os “indignados” da Porta do Sol de Madrid, sem qualquer proposta política, são fácil massa de manobra para populismos que podem desembocar em formas totalitárias. Lembrando Marx, no Dezoito Brumário de Luis Bonaparte, “a história se repete, a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”.

Por falar em farsa, não se pode deixar de notar a semelhança entre a postura física do bufão Berlusconi com a do bufão Benito Mussolini. Expressões faciais, maneira de cruzar os braços, cara enfezada, etc. Ridículo a toda prova, porém com elevada dose de malignidade. Há pouco, o próprio Berlusconi, antes de ser defenestrado, comparou-se a Mussolini.

Berlusconi e Il Ducci 

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O lindo museu de Art Nouveau, um dos pontos altos de Salamanca, é quase desapercebido nos guias turísticos. Vale a pena a visita, não só pelo acervo, como também pelo prédio.

Museu de Art Nouveau

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Dois dias são suficientes para se admirar os principais marcos arquitetônicos e urbanísticos de Salamanca e conhecer algo de seu passado.

Não recomendo qualquer curso na universidade local a não ser o de língua espanhola.

2017-11-06T18:24:03+00:00 By |Viagem|

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