Impressões de Viagem à Velha Nova Europa

Estou chegando de viagem. Munique, Viena, Praga e Budapeste. Nos meses quentes, as cidades européias apresentam uma movimentação impressionante de gente nas ruas centrais. É visível o contraste com o ambiente urbano dos Estados Unidos. As Ramblas de Barcelona são a celebração mais acabada da cidade enquanto forma de convivência coletiva. Nas ruas constrói-se a amizade e acontecem os primeiros e os últimos passos do namoro. Na Itália, as mulheres que passam por certas ruas são amorosamente beliscadas. Uma italiana me disse, acho que a brincar, que suas concidadãs não regularmente beliscadas se sentem feias e enjeitadas. Nos Estados Unidos, com a notável exceção de cidades como Nova York, as ruas ficam abandonadas, mesmo durante o verão. As pessoas não caminham, mas apenas se deslocam correndo em trilhos predeterminados, com o intuito de manter a boa forma. Em algumas cidades americanas, os que andam calmamente pelas ruas são parados pela polícia em vista desse comportamento suspeito. E as mulheres não têm senso de humor, como demonstra o conselho de amigos meus de que nunca entrasse em elevador sozinho com uma mulher, para evitar eventuais falsas acusações de assédio sexual com o fim de extorsão.

Mais de 97% da cidade de Munique foi atingida pelos bombardeios aliados e 3/4 dos seus prédios foram destruídos. A maioria das grandes cidades da Alemanha passou por situação igual. Algumas receberam o poder destrutivo de bombas similar ao de um artefato nuclear. Em Dresden não restou pedra sobre pedra. Em outros países, centros como Viena passaram por grande destruição. Para não falar das cidades russas arrasadas quando do ataque alemão.

Conhecendo bem o “lado de cá” da Europa, que termina na fronteira da França com a Alemanha, este autor já sabia da destruição do “lado de lá”, mas nunca tinha visto cidades velhas tão novas, devido à reconstrução do pós-guerra. Talvez o exemplo mais próximo de uma cidade grande “do lado de cá” que sofreu o fado da destruição seja o de Birmingham. Porém, sempre foi uma cidade industrial muito feia, de forma que sua reconstrução mais ou menos fiel pouco importa para o patrimônio arquitetônico mundial. Londres teve alguns quarteirões destruídos, mas as V2 não foram capazes de arrasá-la. Paris escapou por pouco, enfrentando alguns bombardeios esparsos, pois a fulminante queda da França poupou a Cidade Luz. Na retirada, a ordem de Hitler de destruir a cidade não foi cumprida por um civilizado general alemão. Na Itália, os bombardeiros aliados nunca foram tão arrasadores, pois o apoio dos guerrilheiros e da população civil foi importante na luta contra os alemães e seus colaboradores locais. Roma, “cidade aberta”, foi poupada.

O resultado da destruição seguida de reconstrução quase total é que cidades como Munique oferecem uma impressão “fake“. Prédios barrocos ou da Idade Média foram reconstruídos de acordo com a visão que seus moradores tinham do passado. Essas cidades reconstruídas são expressões de uma memória coletiva nem sempre fiel. São manifestações de um desejo de que essas cidades fossem limpas, pintadinhas e arrumadas. As edificações dos Alpes bávaros, sempre apresentaram um jeito de “casa de boneca”, que pode ter sido exagerado com a reconstrução. Aliás, o padrão “casa de boneca” não se restringia às casas das pessoas comuns, mas também aos castelos. No caso do famoso castelo de Ludwig, a expressão “casa de boneca” é particularmente bem usada, se lembrarmos das inclinações de seu real ocupante.

CASA DE BONECA BÁVARA:

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Foto: George Zarur

CASTELO DE LUDWIG

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foto: George Zarur

Verdade é que essas cidades foram reconstruídas muitas vezes, devido a guerras ou à renovação urbana. As igrejas ilustram este aspecto: por toda a Europa há igrejas românicas que se transformaram em góticas, que se transformaram em barrocas. Algumas, em resposta ao romantismo do século XIX, depois de fechado esse ciclo ainda voltaram a ser (neo) góticas. É comum a associação de um portal românico a um claustro gótico associado a uma igreja barroca e a um púlpito do século XIX. São muito poucas as construções religiosas que mantém um padrão “puro”. Portugal, devido ao isolamento e, talvez, ao caráter menos arrasador das guerras travadas em seu território tem em prédios como a Sé de Coimbra, uma das construções românicas mais “autênticas” da Europa, ou seja, com menor intrusão de outros estilos. O abandono em que se achava quando a visitei, com goteiras, sujeira e fios expostos, explica em parte essa “autenticidade”, pois cada obra de restauração geralmente traz junto consigo novas noções de estilo. Edificações como Batalha, cidades inteiras como Óbidos ou o fantástico Castelo dos Templários de Tomar – três jóias bem conservadas – ilustram a autenticidade de monumentos lusos, embora Tomar, quase todo românico, exponha a famosíssima janela manuelina. Talvez, monumentos tão autênticos como os lusos só sejam encontrados na Croácia e em outros lugares esquecidos da Europa.

Voltando para a “Europa de lá”, a catedral de Munique teve poupadas suas duas enormes torres, ao que parece para que servissem de referência para a navegação das fortalezas voadoras. A lenda é que Deus teria colocado as mãos em concha para proteger Sua casa. Isto não impediu que os pedreiros que a restauraram após a guerra pusessem no teto seus rostos, como, séculos antes, Mestre Pilgram se auto-retratou sofredor, com esquadro e compasso, na Catedral de Viena.

Nessas cidades da “Europa de lá”, ouve-se, no presente momento, tanto ou mais o som do português dos turistas brasileiros – verdadeira praga, classe na qual, relutantemente, sou obrigado a me incluir – quanto o inglês dos turistas norte-americanos (praga de outra classe). É surpreendente o número de brasileiros que hoje invadem as cidades turísticas européias. É este um sinal evidente de quão suicida é a atual política econômica nacional, que mantém uma taxa de juros artificialmente elevada (para lucro dos bancos), e o real sobrevalorizado. Assim, é mais fácil e barato ir à Europa do que ao Nordeste brasileiro das praias idílicas. Para o garçom europeu, o emprego e para o ex-garçom nordestino, a bolsa família.

Viena é impressionante por me parecer das mais imponentes cidades da Europa (não conheço São Petersburgo). Bate outras cidades européias. Embora tão ou mais imponente, Paris nunca conseguiu ser a capital de um império para valer, condição que a França jamais atingiu, excetuada a breve aventura napoleônica. Londres, sede do finado – pranteado apenas pelos ingleses – Império Britânico, nada tem da aparência de capital imperial. Viena ainda ganha de Washington e Brasília e embora diferente, talvez vença a Pequim Imperial. Para não falar de cidades como Lisboa das imediações do Porto ou de Roma, das ruínas antigas e do simbolismo da Igreja Católica.

VIENA MONUMENTAL I

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Foto George Zarur

O que caracteriza uma capital como imperial são as largas avenidas planejadas para desfiles militares e triunfos diversos, as impressionantes praças para as reuniões do povo para o engrandecimento do estado e/ou do suserano e palácios, templos e estátuas celebrando as vitórias da nação. O indivíduo é anulado frente ao tamanho monumental das vias, praças e prédios, como se fossem desenhados para um soberano de gigantesca estatura, senhor de um Estado-Deus hipertrofiado. A fórmula já era bastante conhecida no Egito antigo, como se vê no tamanho das estátuas dos Deuses e faraós. Em Viena, as estátuas dos Habsburgos são também enormes, assim como as de seus generais importantes.

VIENA MONUMENTAL II

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Foto George Zarur

No coração reconstruído de Viena estão os palácios dos Habsburgos que abrigam as coleções de arte que a dinastia reuniu. Os Habsburgos e o Império Austro-Húngaro desapareceram. Logo, Viena existe como exemplo de cidade imperial do passado. Brasília existe como vontade de império não realizado. Lúcio Costa declarou que ao planejar Brasília inspirou-se na perspectiva da Pequim, dentre outras. Já Washington é a única capital de império de verdade do mundo de hoje, embora Pequim talvez não leve muito tempo para competir com Washington. Washington foi construída como capital de império, como se percebe pelo tamanho do Mall, dos grandiosos monumentos e na evocação do passado greco-romano.

VIENA MONUMENTAL III

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Foto George Zarur

Diversas capitais européias, com a possível exceção de Londres, transmitem para a arquitetura uma intensa vontade do império. A Inglaterra era tão segura de seu poder imperial que não precisava exibi-lo para o seu povo ou para os povos vizinhos. O show da arquitetura não era necessário para um império colonial sem pretensões de se expandir no Continente. A Pérfida Albyon foi, após a revolução industrial, notavelmente eficiente em espalhar seu imperialismo econômico na Europa e em todo lugar – Portugal que o diga – mas nunca se interessou muito em invadir outros países europeus. A única possessão européia fora das Ilhas Britânicas é outra ilha, Gilbratar. Sua última guerra expansionista no continente foi a dos Cem Anos. Os símbolos imperiais ingleses eram aplicados nas colônias sem necessidade do uso de Londres com este objetivo.

VIENA MONUMENTAL IV

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Foto George Zarur

Hoje, Viena vive do Turismo, exibindo aos visitantes de todo mundo seu impressionante passado. Apresenta, também, um notável espetáculo humano, do qual os turistas não deixam de fazer parte. A novidade em Viena e, especialmente em Praga, são as hordas chinesas que, atualmente, reduzem os outrora numerosos japoneses a uma mera amostra. As chinesas são mais simpáticas do que as japonesas, mais relaxadas e alegres. Apresentam, também, algumas surpresas: quando aparece uma abelha, vespa, marimbondo ou inseto assemelhado fazem uma espécie de choro ritual, como se comunicando com o bicho. Além, é claro, dos brasileiros, que podem me alegrar ou encher de vergonha, como quando endinheirados moradores da Barra da Tijuca sentaram ao meu lado durante um concerto em Viena. Conversaram durante toda a apresentação em voz baixa e rouca que supunham inaudível e, pelas tantas, um deles, ao ler a expressão “mezzo-soprano”, que achara engraçadíssima, perguntou-me o que significava em meio a gargalhadas.

VIENA MONUMENTAL V

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Foto George Zarur

Budapeste tem Buda e Peste. Peste é feia. São prédios antigos pintados por décadas da fumaça negra dos Trabants, ainda visíveis na cidade. Mesmo a famosa Avenida Andrassy não oferece maiores atrativos, apenas certo interesse. Do ponto de vista urbano, o melhor é Buda, no alto do Castelo. Embora com uma vista maravilhosa, ruas muito bonitas e uma respeitável catedral (várias vezes reconstruída) bem nesse centro simbólico da nação encontra-se um hotel Hilton. O Hilton se mistura com o “Bastião do Pescador” construído durante a Belle Époque, uma beirada altamente decorativa.

PARLAMENTO HÚNGARO A PARTIR DO CASTELO DE BUDA

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Foto George Zarur

Budapeste é realmente estranhíssima, como bem retratou Chico Buarque no livro que leva esse nome. Cliquei com a minha câmera um cachorro dirigindo um carro. Fiquei espantado, pensando que poderia ser um experimento soviético fora de controle, mas ao lembrar os animais que conduzem veículos no Brasil e dirigem a própria política nacional, meu espanto foi matizado. Fui xingado por uma motorista por estar atrapalhando o trânsito. A senhora, de dedo em riste, disse com raiva:

“- nhec, nhec, nhec!”

Palavra que eu não sei o que significa ou sequer se é uma realmente palavra em húngaro é “fudomidal“, que vi escrita em uma loja. Por associação com expressões consoantes brasileiras, todas as vezes que alguma coisa não dava certo em Budapeste, eu, tentando a adaptação lingüística, afirmava com ênfase: “fudomidal!” Usei a expressão várias vezes, em reação ao aspecto soturno dos húngaros. Afinal de contas, a Hungria está pertinho da Transilvânia, terra do Conde Drácula. Para contribuir com o ambiente Kitsch de Budapeste, vi com horror em uma tarde de sol, aproximar-se um ônibus cor de rosa cheio de velhinhos e velhinhas americanas, nos quais estava escrito em garrafais letras BARBIE BUS. Por nada neste mundo, entraria naquele espantoso veículo.

CACHORRO DIRIGINDO AUTOMÓVEL EM BUDAPESTE

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Foto George Zarur

CACHORRO SORRINDO E DIRIGINDO AUTOMÓVEL EM BUDAPESTE

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Foto George Zarur

Acho que houve em Praga uma campanha pelos meios de comunicação do tipo “trate bem o turista”, como aconteceu em Paris, há alguns anos. Só após essa iniciativa os visitantes estrangeiros deixaram de tratados a pontapés na cidade luz. Os tchecos eram famosos por sua rabugice. Entretanto, hoje, as pessoas estão gentis, alegres e relaxadas com os estrangeiros e fazem, pacientemente, toda sorte de mímica para compensar a língua incompreensível. Até mesmo as estátuas dão conselhos e paternais reprimendas aos transeuntes, conforme demonstra a fotografia abaixo.

PRAGA I: TRANSEUNTES SÃO ORIENTADOS POR SANTOS E NOBRES

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Foto George Zarur

A Praga antiga é das cidades mais belas do mundo, embora prejudicada pelo excesso de gente. Em certos horários, fica até difícil andar na rua, especialmente na Ponte Carlos, marco maravilhoso na cidade. É um lugar a ser visitado nas horas de menor movimento. O melhor mesmo é ir à Praga fora do verão, pois a cidade fica cheia demais nesta estação.

PRAGA II: VISTA A PARTIR DA PONTE CARLOS

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Foto George Zarur

PRAGA III: PONTE E CATEDRAL

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Foto George Zarur

PRAGA IV: EXCESSO DE GENTE

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Foto George Zarur

A beleza dos bairros antigos da Praga antiga tem a ver com autenticidade. Não sei o quanto foi destruída e reconstruída, mas aparenta ser autêntica. A parte moderna de Praga não tem maiores atrativos, a não ser um ou outro prédio. A beleza de Praga também tem a ver com escala. Não é uma capital imperial e a escala não é gigantesca, mas humana!

PRAGA V: A ESCALA HUMANA

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Foto George Zarur

Embora em Viena todo mundo fale inglês, em Budapeste e Praga, fala-se algum alemão e muita gente ignora o inglês. No barco de Viena para Budapeste pelo Danúbio conheci um mineiro que já foi mais de vinte vezes à Europa embora não fale nem good morning. Nada fala além do português belo horizontino, por sinal sem qualquer problema. É um fenômeno, pois consegue viajar de trem, barco, avião, andar de bonde e metrô e ainda hospedar-se em hotéis. Mas, resolve seu problema de maneira custosa. Antes da viagem faz um curso com amigos sobre como fazer em cada cidade. Chega aos aeroportos oito horas antes da viagem para, por meio de mímica, fazer o check in e descobrir o portão de embarque a tempo e as demais informações necessárias para não perder o vôo.

PRAGA VI: A ESCALA HUMANA

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Foto George Zarur

A Europa oriental carrega duas imagens tristes: cidades escuras com sofridos guetos apertados e a repressão soviética. São representadas por ruas sombrias e frias, prédios negros e tudo é meio esquisito. É o oposto do Mediterrâneo. Começa no Norte da França a passagem para a “Europa de lá”, e para o seu núcleo na Europa Oriental. Praga não tem nada de soturno, embora eu não a conheça no inverno. Já Budapeste leva todo o jeito. Imaginem, que uma de suas grandes atrações para turistas sádicos é a “Casa do Horror”, museu onde a polícia secreta dos tempos soviéticos torturava as pessoas.

PRAGA VII: A ESCALA HUMANA

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Foto George Zarur

Todas as cidades que valem a pena ser vistas devem ser visitadas a pé, pois caso contrário não se vê nada. O ideal é se hospedar no hotel mais central possível, próximo aos bairros mais antigos, pois para ver arquitetura moderna é melhor ir para os Estados Unidos ou mesmo para o Brasil. A Europa é o passado e é andando que se revive o passado afetivo. Visitá-la é uma aventura psicanalítica jungiana, para a descoberta do nosso inconsciente coletivo de povos da América. Por falar em Jung, nunca me senti tão maternalmente embalado por uma cidade, como em Roma, no Outono. Era como voltar à casa de meus pais, ao lar de onde saí há muitos anos. Suas igrejas, praças e até a curva dos trilhos do bonde de Santa Croce in Gerusalemme me fizeram viajar no tempo à minha rua e à minha praça do bairro da Gávea, no Rio de Janeiro dos anos cinqüenta. Bairros antigos em morros do Rio de Janeiro são pedaços de Lisboa. No Barri Gòtic de Barcelona revivemos o imaginário de nosso Brasil, onde, no Nordeste, ainda é cantada a Canção de Roland e celebrados os doze pares de França. Nunca me esquecerei das minhas filhas ainda muito pequenininhas a me contar, em linguagem infantil e acaboclada, estórias do ciclo da cavalaria, dentre as quais fragmentos da Chanson. A responsável foi uma contadora de estórias, herdeira de mais de mil anos de tradição oral. Chamava-se “Caçula”, recém-chegada do Sertão da Paraíba.

O Presidente norte-americano chamou de “Velha Europa” aos dignos povos que se opuseram à genocida invasão do Iraque. Não existe elogio maior. Que nossa Europa, África e a América Nativa tenham vida muito longa, para que possamos sempre receber seu afeto maternal.

2017-11-06T18:48:04+00:00 By |Viagem|

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