Brasília: O Sinal dos Tempos

Apenas um lembrete: Juscelino e Jango para o Catete”*

O pensamento social brasileiro, do povo e da elite, brota da certeza de que algum dia será criado um novo e melhor tipo de sociedade nesta terra. A identidade nacional brasileira constrói-se por uma utopia, por meio da idéia de que, repetindo o ditado popular, aqui existirá uma sociedade “em que serão abolidas as barreiras de raça, classe e cor”. Ao contrário dos países europeus, que ancoram sua identidade no passado ou dos Estados Unidos que a referem ao presente, o Brasil constrói-se por uma visão de futuro compartilhada por místicos e intelectuais.

Brasília deu forma e concretude a um projeto nacional secular. Pensada pelos inconfidentes, cristalizada no sonho, realizou-se na vontade de Juscelino Kubitschek. Herói é aquele que muda a sorte da guerra, do jogo ou da história. Juscelino e Getulio Vargas, os dois grandes heróis políticos brasileiros do século XX, mudaram o rumo da nossa história. Seu generoso sacrifício pessoal frente à perseguição implacável também é testemunha de inesquecível heroísmo.

Esses demiurgos dos tempos novos mostraram ao povo os sinais da iminente chegada do milênio, evidências tangíveis da aproximação da utopia sempre viva no sentimento nacional. Getúlio Vargas avançou o Brasil no caminho da industrialização e reconheceu a classe trabalhadora como ator político. Juscelino construiu Brasília, cortou o país de estradas, acelerou o desenvolvimento econômico e garantiu a democracia.

Muito criança conheci Juscelino Kubitschek governador de Minas, quando o meu tio Nélio de Cerqueira Gonçalves comandava sua Polícia Militar. A UDN, liderada por Carlos Lacerda, “O Corvo”, armou o golpe militar revertido pelo suicídio de Getúlio e tudo fez para impedir a posse de Juscelino na Presidência. Só teria sucesso em 1964.

A casa de meus pais no Rio de Janeiro transformou-se em escritório da conspiração a favor da democracia. Foi cenário de entendimentos para o contrabando de armas e de encontros sigilosos com comandantes do Exército. A idéia era conflagrar o Brasil para dissuadir os golpistas de levar adiante seus sinistros propósitos.

Após a vitória eleitoral, mobilizaram-se os mineiros. Fez-se a concentração de tropas e o Segundo Batalhão de Polícia de Juiz de Fora, em desobediência às ordens do Comando do Exército, escapou da cidade durante a noite para ocupar posições defensivas em Conselheiro Lafaiete. As pontes das rodovias de acesso a Minas seriam explodidas. Meu pai pensou em levar a família para Belo Horizonte, onde seria mais seguro. Achei ótimo, pois além de emocionante, não precisaria ir à escola.

Em encontros em nossa casa da Gávea surgiram contribuições para o Plano de Metas do novo governo. Participaram meu pai e meu tio, os geógrafos Jorge Zarur e Speridião Faissol. A geografia era então considerada uma disciplina aplicada ao planejamento, tão ou mais importante que a economia. Vi, também, aparecer Josué de Castro.

Vim à Brasília em 1959, na “Caravana de Integração Nacional”. Hospedei-me no Alvorada. Comitivas saíram dos quatro pontos cardiais transportadas por “ônibus brasileiros em estradas brasileiras”. Mudamos para a nova capital dias antes da inauguração. Do alto dos meus treze anos agradava-me a confusão. A cidade tinha apenas três super-quadras construídas. Era uma mistura de obra, asfalto, cerrado e muita poeira. Lobos Guará, siriemas, tatus e tamanduás se assustavam com os tratores. O comércio concentrava-se na “Cidade Livre”, construída em madeira, hoje chamada de “Núcleo Bandeirante” para evitar interpretações relativas à virtude de suas mulheres. O Plano Piloto tinha uma única loja comercial, a Padaria Don Bosco, além de um céu muito azul e de toda a claridade do universo.

Os habitantes viviam a euforia das comunidades místicas que prenunciam a mudança dos tempos. Niemeyer e sua equipe não se preocupavam com o conforto das pessoas, que, entretanto, estavam felizes em se integrar às belíssimas esculturas gigantescas disfarçadas de prédios residenciais e palácios. Bons socialistas distribuíram os apartamentos e casas a cada um segundo sua necessidade. Os imóveis maiores eram destinados às famílias maiores. O motorista da Câmara dos Deputados era vizinho de porta do Deputado, que era vizinho do ministro do Supremo, que era vizinho do continuo.

Anísio Teixeira planejou o sistema educacional. A escola era nova, moderna, clara, povoada por meninas suaves e meninos tranqüilos do interior. Os professores selecionados em concurso nacional chegaram de todo lugar. De manhã, aula; de tarde, atividades como música, esporte, literatura, e dezenas de outras opções. Aquilo era a felicidade em forma de escola! Darcy Ribeiro criou a Universidade de Brasília. Seus professores assumiram a missão de fazer a melhor universidade do Brasil. Segundo meu amigo Glênio Bianchetti, pintor e ex-professor de artes da UNB, iam criar “a melhor universidade do mundo”.

Viver naquelas casas brancas era o prenúncio de que todo o sofrimento ia acabar. A limpidez do mármore lavava as almas e a luz de Brasília contagiava os espíritos.

Hoje, o primeiro impulso é culpar Brasília pela infame elite política que de seus palácios engendra tenebrosas transações. Engano, pois Brasília foi criada para inundar o Brasil de igualdade, alegria, educação, saúde e beleza.

Não é sua culpa ou vontade ter sido invadida e ocupada por inimigos.

* “jingle” da campanha presidencial de 1955.

2017-11-02T19:40:30+00:00 By |Opinião|

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