A VITÓRIA DO GINECEU (desenho animado literário) : capt. I – Da Sociedade das Mulheres e de seus Inimigos Bárbaros

APRESENTAÇÃO

George de Cerqueira Leite Zarur

Este primeiro capítulo do folhetim intitulado “A Vitória do Gineceu” foi-me enviado pelo jovem universitário Joaquim Rodrigues, para apreciação.

Embora discorde da sua tendência em achar graça em coisas muito sérias e ainda que exceda em adjetivos e tenda para o gongórico, o texto não é de todo desprovido de mérito. Meu jovem amigo pode ter inovado ao percorrer o território do estilo satírico, com frequência, sarcástico, que denomina “desenho animado literário”.

O texto também merece consideração enquanto documento de nosso tempo, pois o humor não esconde a insegurança masculina, quando da revisão das injustas relações de gênero cristalizadas ao longo dos séculos.

Por isto resolvi divulgá-lo, ressalvando minha preocupação com a maneira talvez em demasia picaresca pela qual algumas questões são consideradas, embora o próprio autor tenha manifestado o desejo de não ser levado a sério.

Espero que o leitor aprecie a leitura desse capítulo e credite à juventude de seu autor, eventuais exageros que o folhetim apresente.

                                     A VITÓRIA DO GINECEU  

                                   (desenho animado literário)                                                                                                                         por Joaquim Rodrigues

                                         Capítulo I

Da Sociedade das Mulheres e de Seus Inimigos Bárbaros

O que fazer com os homens?

Nas mesas elegantes do “Joana D’Arc’s Lounge” ou dos restaurantes populares, perguntava-se sobre o destino de seres cujas funções reprodutivas eram, com vantagem, substituídas por métodos caseiros de inseminação artificial. Kits Reprodutex, vendidos em qualquer farmácia de esquina só geravam meninas. Bastava a mistura de algum óvulo ocasional com o esperma sintético com cheiro de alecrim contido no frasco! A eugenia nunca dantes rompera tão surpreendentes limites.

A força física era considerada o registro de mal sucedido ensaio evolutivo. Por forte razão, os machos perderam sua função econômica. As fêmeas humanas, precisas programadoras de software e excelentes nos detalhes quase artesanais da confecção de micro-condutores (habilidade herdada da arte de bordar) tomaram conta do mercado . A economia dispensava brutamontes projetados pela biologia para se impor pela violência ou para carregar sacos de café, como os pintados por certo Portinari de outrora.

Era, por fim, reconhecida a maior aptidão das mulheres para as artes, embora reproduções esmaecidas de imagens de antigos pintores fossem encontradas nos sebos semiclandestinos ocultos nas vielas. Obras como as de Leonardo mereciam cautelosa apreciação favorável de historiadoras da arte, que após as ressalvas de praxe, interpretavam-nas como um passo na superação do rústico. O feminino criativo, sem avisar, desabrochara em alguns poucos homens.

As artes se engajaram no engrandecimento da revolução que instituira a sociedade do Gineceu. Quadros enormes exibiam em iluminadas alegorias mulheres de bochechas rosadas a lutar nas barricadas, o seio a saltar do dorso vestido pela bandeira do Grande Símbolo. Cenas de heroicas combatentes a tombar com olhar de sofrimento sob o machado impiedoso de gigantescos ogros. Abaixo do bigode, o esgar sádico do riso de monstros a molhar tábuas de latrinas frente a horrorizadas mulheres acorrentadas aos muros. Torturadores suados a esfregar a barba de lixa em rostos delicados! Vikings cornudos, talvez furiosos por serem cornudos, pilhados a degolar as Doze Mártires da Basiléia!

As galerias de arte exaltavam as conquistas da mulher na historia. A vitória do Gineceu na batalha final dos Champs Elysées era retratada em imagens de lindas mulheres nuas de todas as tonalidades de pele a pisar cadáveres de homens caídos no asfalto. Cenas do desfile da vitória, da Grande Líder acompanhada por marciais regimentos de odaliscas, Cleópatras, Fridas Khalo, coelhinhas da Play Boy, Madames Curie e Bovary, Lucrecias Borgias, Isabéis as católicas e a solene tropa de elite das Santas Terezas de Ávila, uniforme negro inspirado no da Guardia Civil Caminera. Seguiam-lhes as regulares, mechas californianas a escorrer do capacete sobre o pescoço. A aparência da tropa no rigor da moda era ponto de honra para as generalas zelosas do garbo das unidades sob seu comando.

Fechavam o desfile prisioneiros de terno e gravata, macacão ou jeans, segundo sua ocupação. Alguns, pegos na praia de calção, outros, de cueca samba canção, surpreendidos durante o sono da tarde, pois homens são sabidamente preguiçosos. Milhares foram capturados em lupanares. As prostitutas libertas do jugo dos cafetões executados na hora. As cafetinas perdoadas por, também elas, serem vítimas do sistema. As amantes vingadas com severidade, pois, no desempenho do papel da “outra” sofriam inenarrável crise de identidade.

Os vencidos caminhavam lentos a arrastar correntes pesadas, a gritar palavras de baixo calão e a fazer gestos obscenos com os braços, mãos e dedos para deleite da assistência, que via, assim, confirmada a justiça da revolução. Muitos se esmeraram em produzir desagradáveis ruídos corporais com o intento de chocar a assistência aglomerada na calçada. Tais atitudes lamentáveis demonstravam a verdade dos ensinamentos das ideólogas sobre a intrínseca falta de educação dos homens.

Avançara a tecnologia. Militares armadas de joy sticks controladores de drones arrasaram as figuras clássicas dos guerreiros machões, zulus ou vikings ou até Pattons. Soldadas de mini-saia-armadura protegidas por leques-escudos lançavam sobre os inimigos raios puxadores de cabelos e beliscões mortais transmitidos por ondas eletromagnéticas coloridas. Mísseis-baton assassinos explodiam na cara dos oponentes. Cílios postiços convertiam-se em dardos radioativos ativados sorrateiramente após toque no botão oculto no piercing do umbigo.

Assustadoras, as unidades femininas de animais de combate se destacavam por seu poder de destruição. Cadelinhas de guerra Yorkshire com lacinhos na cabeça, Bichon Frisé e Lulu da Pomerânia saltavam alto para cravar os dentinhos na carótida do inimigo. Gatinhas siamesas com cápsulas de curare sob as unhas faziam os grandões morrerem de rir à sua visão para morrerem de verdade depois de arranhados. As bichanas em miados longos celebravam o triunfo sobre o peito peludo dos cadáveres envenenados.

A guerra haveria de ser preocupação de Estado enquanto existissem homens, considerados naturalmente propensos à violência. No Continente Sul americano, nas Ilhas do Pacífico e nas florestas tropicais subsistiam culturas bárbaras em que mulheres subjugadas pela maternidade, dominadas pelos homens e exploradas pela sociedade, ainda se consideravam felizes na instituição arcaica conhecida como “casamento”, produto de milênios de lavagem cerebral.

A destruição do mundo bárbaro se impunha por razões ideológicas e morais. É da natureza das grandes revoluções almejarem a redenção da humanidade. A construção da “mulher nova” era concebida como transformação substancial na condição humana, passo último na busca da felicidade. Era um desafio a vida de milhões de irmãs a vegetar nas terras bárbaras, em falsa felicidade, a parir, cozinhar e a fazer cafuné nos filhos e maridos.

Informados da vitória da revolução feminina, milhões de guerreiros bárbaros puseram-se a caminho, a pé, a cavalo ou em trirremes para se apossarem das mulheres do Gineceu. Acreditavam gozosa e fácil a captura das fêmeas sem machos protetores. Viam-se a se divertir com as tentativas de mordidas das jovens a espernear suspensas pela cintura por braços marcados por cicatrizes de batalhas.

Foram dizimados com facilidade pela tecnologia, inteligência, e disciplina superiores das experientes tropas revolucionárias. Os sobreviventes tentaram explicar o fiasco com a desculpa mal ajambrada de terem enfrentado feiticeiras poderosas. Alegavam ter lutado contra dragões e ciclopes, quando, na verdade, se defrontaram com animais de raça miúda. Muitos cometeram o suicídio ritual envergonhados pela derrota frente a frágeis mulheres. Outros por não encontrarem ao voltar suas esposas, filhas, mães e irmãs, levadas por inimigos à espreita.

Não obstante, a derrota fez crescer a atração dos bárbaros pelas mulheres do Gineceu! A impossibilidade física de possuí-las tornou-as mais desejáveis. Povoavam os sonhos de guerreiros montados em trôpegos eqüinos, a carregar lanças e espadas, protegidos por capacetes decorados com chifres, asas, bicos, penachos e ocultos por escudos de couro pintados com monstros mitológicos do bestiário medieval. Vagavam lunáticos, por incontáveis meses lunares, a percorrer imagens mentais de haréns superdimensionados habitados por mulheres com olhos de vaca – como as desejadas dos argivos que queimaram a urbe de Príamo – levadas à força para seus domínios entre lágrimas, suspiros e preces. Na praça central das aldeias e vilas, As Troianas, em enredo mais cruel do que o original de Eurípedes, era encenada por saltimbancos ao tinir dos timbales e rufar dos tambores.

Da demografia nascia a fantasia na mente desses guerreiros lascivos, pois a população do país feminino era tão elevada, que sobrariam em números os objetos de prazer. Edificaram na lúbrica imaginação, castelos habitados por mulheres de roupas íntimas de forte apelo erótico, dedicadas ao cultivo das diferentes artes do sexo. E essas fêmeas, pensavam os bárbaros, após a resistência inicial não desejariam outra coisa na vida!

Cada castelo teria um só dono e único visitante permitido para fins libidinosos. Velhas desdentadas, das quais extrairiam os dentes se ainda os tivessem, dariam nas moças, banhos de leite de cabra e as incensariam com perfumes de marcas francesas, além de lavar, cozinhar e faxinar. Cada edificação seria identificada pela heráldica das grandes bandeiras a drapejar nas torres, bordadas com elaborados desenhos que representariam as moradoras observadas por aves canoras em gaiolas douradas. Ervas xamânicas permitiriam o gozo contínuo de paradisíacas delícias por estreladas noites e dias gloriosos. As hóspedes paririam montes de crianças para a maior grandeza dos clãs.

A estética dos bárbaros privilegiava mulheres gordas, o que se refletia no peso das modelos escolhidas pelas casas de Alta Costura para os desfiles de moda ao som dos atabaques nas trilhas das florestas. As coleções outono-inverno ostentavam luxuosas vestes com aplicações de ouro maciço sobre peles de animais. As cativas magras, menos gostosas para os padrões daquelas culturas exóticas, fariam algo de útil, como plantar, colher, cozinhar, fiar e tecer. Poderiam trabalhar como domésticas para as mães, irmãs e esposas dos guerreiros, que mesmo um pouco ciumentas, gostaram da idéia, devido á terrível falta de empregadas que assolava os clãs, até os mais aristocráticos.

Antropólogas descobriram em entrevistas com prisioneiros de guerra, o mito profético de Tintin, inspirado no personagem criado por Hergé como repórter do Petit Vingtième, cuja identidade foi reinterpretada pelas culturas bárbaras. Tintin mudara de aparência e ofício, visto que o franzino jornalista passara a ser descrito como musculoso combatente recoberto por vestes e armas inspiradas nas óperas wagnerianas, embora o topete e o rosto redondo continuassem os mesmos. A descrição de seus feitos constava de textos sagrados que, de tão sagrados, não poderiam ter sequer seu nome mencionado e muito menos vistos, o que fazia os incréus duvidarem de sua existência. Profetizava a escrita gótica dessas obscuras escrituras que Tintin restabeleceria a ordem perdida no universo, após conquistar o Gineceu e enviar as mulheres de volta aos seus espaços naturais.

O mito de Tintin, também cognominado “A Estrela Guia dos Homens e de Seus Cavalos”, enaltecia a engenhosidade e força física do herói e a ferocidade de seu cão Milu, mestiço de lobo e molosso envolto em armadura canina de ferro escurecido da qual brotava um chifre sobre a testa de ferro. Com essa ponta, Milu investiria sobre as carnes inimigas, como se rinoceronte fosse, para encerrar a ação com dentadas, mais apropriadas à sua condição de nascimento. Mas a maior arma de Tintin era a capacidade de seduzir as mulheres. Bastava um olhar de galã de filme em preto e branco para que se lançassem aos seus pés. Até mesmo as habitantes do Gineceu que sequer conheciam homem, atiravam-se alucinadas a abraçar seu corpo hígido.

Aparecera entre os bárbaros um movimento messiânico liderado por beato de camisolão, cabelo em desalinho e banho por tomar chamado Orlando Henrique que, em transe, se comunicava com Tintin. Fundara a ordem ocultista do Grande Espadão, abrigada em templo escondido no seio da floresta. Cercado por aves tropicais, pregava o retorno das mulheres à cozinha, de onde, dizia, nunca deveriam ter se afastado.

Se a contra-revolução tintiniana não chegasse a tempo, viria o final dos tempos, juravam os místicos. Na medida em que sobravam dúvidas hermenêuticas relativas à data do apocalíptico evento, Orlando Henrique aproveitava os momentos que restavam à humanidade para tirar bichos do pé e datilografar ameaças em ultrapassada máquina de escrever da marca Remington. Escrevia-as em papeluchos baratos cor de rosa ou verdes, como os escolhidos por periquitos ou macacos que encarapitados nos velhos realejos ganhavam o alpiste de cada dia a tirar a sorte por moedas de centavo. Enviava-os ao Gineceu por pombos correio que, após a entrega, se matavam a enterrar o próprio bico no peito alvo para que o Serviço Secreto Feminino (SSF) não os seguisse na viagem de volta. Embora famosas na ornitologia por sua lealdade pessoal, pesava no condicionamento que condenava as pobres aves à auto-imolação, o receio de que fossem cooptadas por elogios, carinhos na cabeça e miolinhos de pão e, assim seduzidas, se vissem transformadas em vis delatoras.

Após o desastroso ataque dos bárbaros, o Gineceu passara a realizar incursões sistemáticas contra suas cidades, vilas e aldeias, com manifesta função intimidatória. Os rústicos habitantes daquelas longínquas paragens mantinham vigias em altos mirantes preparados para bater tambores de alerta e soar gigantescas trompas, chamadas “Trompas de Eustáquio” em homenagem a seu inventor, Eustáquio da Cunha, parente distante de Euclides da Cunha. Faziam subir sinais de fumaça, uma vez percebido qualquer movimento suspeito nas planícies abaixo. Olhos de águia perscrutavam os céus em busca de gráceis, mortais aeronaves.

A própria religião do Gineceu mudara com as transformações sociais. As divindades femininas substituíram pouco a pouco o Deus paternal judaico-cristão. Sacerdotisas de cultos celtas voltados à adoração da Deusa Mãe, ocultos ao longo dos séculos por bruxas nas fímbrias da civilização, retornaram às catedrais para ensinar preces imemoriais às filhas do Gineceu. As igrejas mantinham em seu altar principal escultura pagã de uma Venus esteatopigia de dez metros de altura, cópia ampliada de estatuetas encontradas em sítios arqueológicos.

Chamava-se Beth Crocker, a ideóloga da revolução feminina. Escrevera monumental tratado em oito tomos intitulado “Female Power Over Disgusting Creatures”, que viria a ser a Bíblia de gerações de dedicadas militantes. Previa longo processo evolutivo que culminaria com realização da plena humanidade, consubstanciada no controle feminino da vida civil e na expulsão dos homens das praças e das ruas para as periferias da sociedade organizada.

Crocker, em vários capítulos de seu livro, lembrava a sabedoria milenar da autora pré-histórica homenageada com o título de “Pensadora Primordial”. Essa grande teórica, cujo nome se perdera no tempo, escrevera “Das Capital”, considerada obra venerável como o I-Ching. Entendiam as historiadoras das idéias serem complementares esses livros antigos, uma vez que ambos falavam de contradições, mutações, oposições, simbolismo e consciência. Algumas sugeriam serem de autoria comum, da lavra de profetizas abrigadas em templos contíguos às pirâmides do Egito.

Beth Crocker iniciara a carreira em ignota paragem denominada “Ivy League” situada em coordenadas desconhecidas das calotas subpolares Norte e terminara no cárcere, onde dispôs do tempo para dar forma acabada à suas idéias sobre o inexorável avanço do bonde da história ao longo de rígidos trilhos. Abria sua obra com o capítulo “The Biological Basis of Female Supremacy”, em que defendia a tese da superioridade feminina como inerente à condição humana. As mulheres compensariam a menor força física com maior capacidade cerebral e inteligência mais desenvolvida, uma vez que tais características seriam indispensáveis para a proteção das crias. O mais fraco fisicamente teria que ser mais capaz intelectualmente e com o avanço tecnológico, a força física deixara de ser importante. Citava exemplos de animais como os cães e outros mamíferos, em que as fêmeas seriam comprovadamente mais inteligentes. A extrapolação do comportamento animal para o universo humano era um passo científico, há muito, já percorrido pela disciplina da Sociobiologia, que Beth assumia com fervor.

Sucediam-se os capítulos na análise dos diferentes estágios atravessados por desaparecidas civilizações do passado ao longo da evolução social. A autora chamava o passado, o presente e o futuro próximo de “Pré-história”, uma vez que, no seu entendimento, a história realmente humana somente teria início com a instalação do Estado do Gineceu. Os meses e anos seriam marcados a partir da vitória feminina. Por isto o ano zero da contagem do calendário seria o da vitória da revolução. Criou a expressão “Estado do Gineceu”, cuja organização e funcionamento apresentou no capítulo conclusivo de seu estudo sobre a sociedade humana, intitulado “A Female Utopia”..

Mas a hegemonia feminina já estava em curso bem antes da sangrenta revolução de Maio, não por acaso, o “mês das flores“, devido ao sucesso da mulheres no mercado de trabalho. Restaram aos homens algumas poucas ocupações como a de garotos de programa e a de lutadores de Sumô. Nenhuma empresa convencional cogitaria em contratá-los, pois elas eram mais aptas, preparadas e pacientes.

Na tentativa de proteger o que restava da população masculina economicamente ativa e de uma visão do mundo masculina em processo de desaparecimento, professoras universitárias resolveram contratar alguns homens como docentes em suas instituições, mas cedo foram forçadas a rever essas políticas compensatórias e a generosa intenção de assegurar a diversidade no meio acadêmico. Até para a mais ingênua das crentes na bondade humana foi demonstrada a total impossibilidade de recuperação das toscas mentes do sexo oposto.

As paredes têm ouvidos e por elas, souberam reitoras e pró-reitoras, de suspeitas emanadas das tortuosas mentes masculinas. Sussurravam nos corredores, em voz mais alta do que permitia a cautela, que a abertura das vagas que ocupavam nas instituições de ensino tinha como real objetivo facilitar a obtenção de namorados para as docentes, desiderato ainda perseguido naquele tempo no meio acadêmico.

A relação de homens para mulheres era de cerca de um para cinco nas universidades. Dada a assimetria de poder era impossível aos primeiros recusarem as últimas. Alguns professores emagreceram demais, transformaram-se em fiapos humanos e vieram a sofrer de anemia severa, em que pese a dieta de ovos cozidos gratuitamente fornecida pela reitoria. Olhos fundos, por várias vezes ao dia, após o escrutínio atento de seu corpo por passantes ocasionais, eram retirados das salas em que, com voz trêmula, tentavam ministrar suas aulas.

Se eram fêmeas em excesso para garanhões, imaginem para pôneis!

Professores de história fugiram desesperados, embrenhando-se nos matos com o intuito de fundar quilombos. Físicos em desvario comportavam-se como partículas elementares. Professores de Química e biologia viraram travestis, seguindo a lei de Lavoisier. Alguns assumiram seu enrustido homossexualismo; outros o fingiram para desestimular o assédio.

Nas reuniões docentes, o único professor homem da Faculdade de Direito, ex Ministro de tribunal superior, julgava-se uma barata de grandes olhos redondos a percorrer as páginas de alentado Vade Mecun. Na miserável condição de inseto, visualizava as colegas como caracteres gráficos da folha esmaecida em que perambulava. Percebia as de notório saber como letras maiúsculas. As juristas brilhantes via-as douradas, algumas rebuscadas, góticas. Observava as fracas nas letras jurídicas para, incrédulo, reconhece-las como letras apagadas do alfabeto. Consolava-o a lembrança de que “a justiça é cega”, o que explicaria sua deficiência visual.

A crescente consciência da incapacidade masculina em competir no mundo da ciência e da tecnologia, nos tempos da sociedade do conhecimento, foi, passo a passo, expulsando-os dos espaços públicos. Até que eclodiu a contra-revolução, depressa abafada pela vitória final das mulheres.

Um pouco de romantismo e ternura da parte dos homens tudo teria resolvido de forma pacífica! As detentoras do poder seriam docemente convencidas da necessidade de políticas sociais direcionadas a essa parcela menos favorecida da população. Porém, prevaleceram os radicais, que ignoraram a mão generosa que lhes era estendida. Vencidos, foi-lhes cassada a cidadania, confinados em favelas e em instituições de caridade.

A população masculina era mantida estável, não obstante os métodos eugênicos, a elevada taxa de mortalidade e a baixa esperança de vida nos bairros miseráveis em que se aglomerava, pois todos os dias chegavam meninos criados em orfanatos, encontrados a vagar assustados nas aldeias bárbaras incendiadas após ataques o Gineceu.

Após a captura não choravam, pois aprendiam com os pais era que “homem não chora”. Amarrados em longas filas, os que não tombavam na jornada sob sol causticante, marchavam por dias a fio até navios de carga onde eram alimentados por latas de Boston Baked Beans e por suco ralo adoçado em excesso. Boston Baked Beans é, como se sabe, a pior comida do mundo. Devido à importância da culinária para os franceses, a “Direction de Surveillance du Territoire” (o Serviço Secreto Francês) ameaçava, no século XX, os prisioneiros em interrogatório com a ingestão desse alimento.

No caminho, os meninos menores eram carregados pelos maiores, que se recusavam a vê-los nos braços de voluntárias da Cruz Vermelha. Eram trazidos para o Gineceu por alegadas razões humanitárias, pois haviam perdido os pais devido aos danos colaterais sofridos pela população civil durante os bombardeios. Entretanto, o verdadeiro motivo era o de evitar que crescessem guerreiros jurados aos espíritos dos ancestrais a vingar o clã ultrajado.

As meninas bárbaras, após ganharem de presente um ursinho de pelúcia, um vestidinho de organdi branco ou rosa com um grande laço de fita na bunda, sapatos pretos com meias três quartos e elegantes chapéus e sombrinhas para protegê-las do sol, seguiam confortável viagem em carrocinhas puxadas por carneirinhos brancos, em trenzinhos coloridos ou montadas em lindos e mansos pôneis. Para as pequenas havia carrinhos de bebê empurrados por babás de uniforme que as atendiam com desvelo. Os brancos navios de turismo à sua espera tinham piscina, brincadeiras orientadas por monitoras, contadoras de história, brinquedotecas e parques temáticos,

A bordo eram-lhes servidas deliciosas guloseimas, com ingestão controlada por nutricionistas para que não engordassem ou tivessem dor de barriga. A adaptação da dieta das futuras cidadãs era um problema de saúde pública, uma vez que em suas aldeias nativas, comiam carne crua de caça diariamente na forma de steak tartar para que crescessem fecundas matrizes e potentes nutrizes. Além do mais, a comida bárbara era muito temperada. Até nas mamadeiras misturavam pimenta e páprica ao leite de jumentas leiteiras.

A vida nas favelas e abrigos para homens se resumia em fumar maconha, partidas de sinuca, beber cachaça, jogar peladas nos becos, ver filmes pornográficos e esperar por mulheres ardentes que viessem visitá-los com presentes de bolas de futebol, camisas de times, sabonetes, pentes, bombons, sandálias de dedo e sanduiches de mortadela. Essas relações ocasionais com o Exterior tornaram-se cada vez mais raras, mesmo para os jovens e bonitos. E havia as conversas tristes: memórias da mãe, da esposa e de afetos há muito acabados. Alguns, disfarçados com roupas femininas fugiam desses ambientes infectos cheios de ratos para serem detectados devido ao seu cheiro forte por yorkshires da polícia e imediatamente executados por esses mesmos animais.

Os favelados assistiam em decrépitas televisões, jogos do Vasco, Botafogo, Palmeiras, São Paulo, Fluminense, Santos, Grêmio e Cruzeiro, em contraste com os bárbaros das aldeias que torciam, pelo Flamengo, Corinthians, Atlético e Inter. Com medo da polícia, aquelas pobres criaturas abafavam até mesmo os gritos de gol para não perturbar a reprodução dos caranguejos que viviam na lama que os circundava. Já os bárbaros promoviam grandes brigas de torcidas bêbadas que duravam vários dias, uma vez que não havia polícia para separá-las e que os brigões muito apreciavam a pancadaria. Tais conflitos só se encerravam com a intervenção das mães e esposas quando achavam que os confrontantes já tinham se divertido suficientemente e que estariam tão bêbados que não reagiriam. Cambaleantes, eram carinhosamente conduzidos pela orelha de volta para casa.

O Partido das Conservadoras Sexuais (PCS), integrado por aguerridas velhinhas reacionárias que ainda praticavam sexo à maneira tradicional, perdia votos a cada eleição, seja devido à morte das provectas associadas, seja em função da linha política impopular e anacrônica. Em localidades sem importância, o PCS elegia um ou outro vereador. Com a disseminação dos métodos de conquista do prazer reunidos no “Protocolo Barbarela” tornara-se inconcebível para as mais jovens que alguém procurasse intimidades corpóreas com brutamontes peludos pelados. Socialmente estigmatizadas, as velhinhas eram militantes apaixonadas da causa masculina, que, devido à artrite, moviam-se com dificuldade a gritar palavras de ordem nas passeatas.

Mesmo em número reduzido, possuíam alta visibilidade midiática em razão dos protestos violentos que realizavam nos centros das cidades, invariavelmente encerrados com choques com a polícia. As repórteres adoravam filmar as anciãs, dentaduras a voar, a fazer uso de bengalas para correr com dificuldade das bombas de gás e das éguas da Polícia de Choque montadas por amazonas de cassetetes na mão. O partido possuía um fanático núcleo terrorista que explodia artefatos cujo único efeito era o de dar fim à vida de suas dedicadas portadoras, pois sempre arrebentavam antes do previsto. A sigla do grupo terrorista era MULETA – mulheres do ETA – em homenagem à organização nacionalista basca desse nome.

Outra força política atuante na defesa masculina era a ONG “Salvem os Homens”, descendente da antiga organização não governamental “Salvem as baleias”. Após a extinção desses cetáceos, o “board” da organização decidira mudar seu nome e objeto para aproveitar os recursos humanos altamente capazes com que contava. Não perderiam seus dirigentes, os contatos políticos de que dispunham e as relações próximas com fontes financeiras dentro e fora do governo, sem esquecer os recursos cibernéticos reunidos em mailing lists que arrolavam milhões de endereços eletrônicos. Eram conservacionistas que acreditavam ser a diversidade biológica a base para a sobrevivência das mulheres e da própria vida na terra. Operavam em sintonia com uma ampliada rede de ONGs voltadas para a área do meio ambiente e para políticas de defesa dos homens e de espécies vegetais e animais ameaçadas de extinção.

As igrejas exerciam relevante função assistencial. Distribuíam cestas básicas adquiridas com a contribuição das fiéis caridosas. Esta era a mais importante fonte de alimentação nas favelas. Além disso, mantinham orfanatos para meninos bárbaros, onde com pesar, missionárias eram obrigadas a aplicar duros castigos. Tinham a consciência de que os corretivos que ministravam contra a própria vontade, impunham a disciplina para o bem dos pequenos, até que, adolescentes, fossem transferidos para os barracos dos mangues.

CONTINUA NO PRÓXIMO CAPITULO ?

2017-11-02T19:04:59+00:00By |Opinião|

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